April 22nd, 2003

rosas

conto: macuti

Atravessamos o Macuti.
Começámos lá em baixo, junto ao cemitério, e vamos subindo a rua central, sob o zénite solar do meio-dia. Mais tarde visitaremos o templo hindu e chegaremos, julgando-nos sãos e salvos, à cidade de pedra, onde a húmidade das paredes e a secura do sal nos oferecem a guarita da memória. Depois, mais para o fim da tarde, seguiremos até lá acima, e morreremos com o dia na pequena praia que fica aos pés da fortaleza, a ver os pescadores recolher a vela do dhow.
Mas por enquanto, desprotegidos, de cabeça descoberta, atravessamos o Macuti. Somos insignificantes, e sabemo-lo, sobre a ponte que a rua forma por cima dos telhados das casas. Estamos à mercê dos olhares, dos sortilégios, do odor agudo que se desprende da água morna da praia, percorre o labirinto das travessas, rasa o colmo dos telhados, e, encorpado, vem pousar aqui na rua central.
Chegaremos mais tarde à segurança da cidade de pedra, é certo, e sentados à mesa do governador avistaremos o molhe da capitânia, e todas as riquezas que por ele desembarcam, e que tornarão a nossa morte mais próspera e patética.
Mas já nessa altura saberemos identificar a parte de nós que perdemos no caminho, derramada na poeira dourada da rua central.
Porque é agora, quando atravessamos o Macuti, que o feitiço do sol e do ar, e o dos olhos, nos arranca do peito o futuro, e o deixa caído, aqui, na ponte de areia que sobrevoa o telhado das casas.