April 16th, 2003

rosas

trovante - por detrás do palco

Estou a ler o livro ‘Trovante – Por Detrás do Palco’, que o Manuel Faria escreveu a contar a história, e as estórias, do Trovante. É evidente que O Trovante é um dos nomes incontornáveis da música portuguesa, e que, de certa forma, simbolizam toda uma geração. As pessoas que têm mais ou menos a minha idade, ou que pelo menos partilham o mesmo quadradinho estatístico na parte do escalão etário, partilharam, penso eu, algum percurso. Em termos musicais esse percurso foi determinado por dois grandes factores: éramos todos ouvintes de rock (nas suas diversas formulações: os mais velhos mais amantes do rock progressivo, os mais novos, como eu cof! cof!, mais inclinados para as punkalhadas e new waves), mas, por outro lado, não ficámos imunes ao apelo da música, e da cultura em geral, popular. Nos finais de 70, era quase mandatório ouvir a Brigada Victor Jara, cujos discos partilhavam arcas e estantes com os Clash.
Ok, tudo isto a propósito do livro. É que O Trovante surge precisamente nesse cadinho: eram de UEC, como muitos de nós (e os que não éramos da UEC, orbitávamos lá à volta, em órbitas mais ou menos estreitas ou mais ou menos afastadas), e estavam nesse cruzamento de quem, por causa da idade, ouvia um determinado tipo de música, e por causa do contexto histórico, ouvia um género completamente diferente.
Leio agora no livro que o Chão Nosso, o primeiro disco do grupo, vendeu 1500 exemplares. Pois bem, um desses exemplares passou temporadas largas na minha casa. Acho que, naquela política que tínhamos de comprar discos para ouvirmos e partilharmos com os amigos, foi o Zé Henrique que o comprou (eu fiquei com dois discos dele lá em casa, o do Meat Loaf e o Death of A Ladies Man, do Cohen – ainda hoje o meu disco preferido dele, mas o Chão Nosso lá voltou à casa do dono). Depois não liguei muito ao grupo, nomeadamente quando foi a grande loucura do Baile no Bosque de que passei um bocado ao lado, até o ter visto ao vivo em Londres, em Março de 84, em condições muito especiais e emotivas (nessa noite, conheci alguns dos meus amigos londrinos que o são até hoje, e, além disso, preparava-me para lá ficar seis meses a fazer quimioterapia), num espectáculo organizado lá por uma organização qualquer da comunidade portuguesa, e cuja primeira parte foi assegurada por um daqueles grupos muito típicos dos círculos de emigração ligados à esquerda, que havia naquele tempo, e cuja música era uma mistura de influência africana e latino-americana (até há pouco tempo tinha o flyer desse concerto guardado, tenho de ver se o encontro na casa dos meus pais, ou se já se perdeu de vez!).
Por estas razões mais ‘do coração’, tornei a ouvir muito Trovante, nomeadamente os álbuns Trovante 84 e, sobretudo, o Sepes, que acho que me foi oferecido pelo Nuno, e que tem algumas das minhas músicas preferidas deles. No resto da década de 80, e depois nos anos 90, O Trovante institucionalizou-se, tornou-se um super-grupo à nossa escala, claro, e os seus músicos, ou a maior parte deles, têm carreiras importantes e lideram ou integram projectos, mais ou menos comerciais, mas que estão sempre, quer se goste deles ou não, nos cruzamentos principais da música ligeira, ou pop, ou whatever, da música portuguesa.
Mas ler agora o livro do Manuel Faria (cuja leitura, escuso de o dizer, me parece obrigatória para quem se interessa minimamente por música e pela cultura nacional) trouxe-me à memória esses temos de utopia em que vivíamos por dentro as grandes contradições. Nunca as coisas tornaram a ser tão intensas, tão apaixonadas, tão absolutas e radicais. Porque éramos novos e agora estamos velhos? Sim seguramente também por isso. Mas também porque, como dizia uma canção do Trovante, tínhamos “saudade do futuro”.

[Não encontrei nenhum site minimamente interessante acerca do Trovante! Alguém sabe de algum?]