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Far From Heaven
rosas
innersmile
Far From Heaven, do Todd Haynes.
Destaque para a precisão e o rigor com que o filme está construído: quer do ponto de vista formal (não é muito frequente um filme fazer desta espécie de obsessão estética um programa de intenções), quer do ponto de vista da estrutura narrativa (admirável a primeira meia hora do filme, em que Haynes dispõe as "peças" no terreno através da montagem ritmada e da utilização, brilhante, das elipses), quer do próprio dispositivo que o filme propõe: contar uma história 'à maneira' de Douglas Sirk, mas expondo toda a série de fracturas que o cinema de Sirk, por causa da época em que foi feito, sugeria mais do que enunciava.
O melodrama é o género por excelência do cinema, e, particularmente, do cinema americano. E Sirk definiu uma certa matriz do melodrama (de certo modo como, para pegar num exemplo actual, Almodovar também fez, ao criar um subgénero caracteristicamente "almodovariano" do melodrama) que se tornou, pela sua excelência, clássica. O que TH faz neste filme é não tanto rescrever um melodrama de Sirk, mas levá-lo mais longe, fazer um filme a partir das próprias marcas identificativas do respectivo género cinematográfico. E fê-lo, por um lado, "encharcando" o filme com uma determinada linguagem, com os seus códigos e os seus símbolos, enfim, com os seus sinais identificadores. E, por outro, fazendo atravessar a história de pontos de conflito que são claramente enunciados, nomeadamente as questões da homossexualidade e do racismo, e colocando-as nos seus respectivos planos: a homossexualidade atinge as personagens no seu plano íntimo, ou seja corrói por dentro a sua estabilidade, enquanto o racismo as atinge no plano exterior, ao provocar a ruptura social.
O filme, para usar um termo de comparação que talvez seja disparatado, é quase como um quadro de Andy Warhol, em que tão ou mais importante do que o que nele está representado, é o "nosso" processo de o reconhecer, de identificar todo o programa que está por detrás dessa representação e que a sustenta.
O resultado é pura e simplesmente brilhante. E para isso contribui em muito a presença da Julianne Moore, que deve ser a mais interessante actriz americana do momento presente, bem como a música cativante e hipnótica de Elmer Bernstein.

Para assinalar o final próximo da exposição de Francis Bacon em Serralves, a rtp2 programou para ontem uma noite 'baconiana': um documentário do The South Bank Show (que pena não vermos por cá este clássico da ITV; o Melvin Bragg consegue fazer sempre programas interessantes e muito estimulantes sobre variados aspectos da vida cultural) dedicado ao pintor, e a exibição de Love Is The Devil, um filme de John Maybury, que foca sobretudo a vida do pintor durante a década de sessenta, a sua conturbada e destrutiva relação com George Dyer, e que tenta criar um universo cinematográfico que seja como que um espelho do universo pictórico de Bacon. Noite reveladora, sem dúvida, sobretudo porque vi a exposição de Serralves há pouco tempo, e está próxima o suficiente para poder usar estes dois programas como "textos de apoio". Sobretudo o documentário do MB, que consta basicamente de uma extensa entrevista "ilustrada". Coisas marcantes: o lugar da obra como a única coisa que tem verdadeiramente significado e importância no processo de criação artística, o momento presente como o lugar de toda a realização. E uma frase admirável (e que eu adopto sem remissão): "I am an optimistic about nothing".
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