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quanto tempo + o caminho solitário
rosas
innersmile
O livro chama-se QUANTO TEMPO, os autores são o José Manuel Osório e o Luís Osório, e está publicado pela Oficina do Livro. Façam-me um favor: leiam-no. Leiam-no depressa! Posso garantir: a vossa vida, o vosso relacionamento com aqueles que vocês amam acima de tudo, vai ser diferente depois de ler esta extensa entrevista, em que nem sempre quem entrevista só pergunta e nem sempre quem é entrevistado apenas responde. Um daqueles livros com vida dentro, que são as daquelas duas pessoas, mas podia ser igualmente a minha, a vossa, a do vosso insuspeito vizinho. É um livro que se lê numa noite, mas que nunca mais nos larga.

Curiosamente, li o livro na noite em que fui ver O Caminho Solitário, de Arthur Schnitzler. Foi graças à insistência do Pedro que fui à peça: as críticas negativas tinham-me tirado a vontade de a ver. Bom, há bens que vêm por bem! Gostei muito. É um espectáculo que cativa, desde logo, pela beleza cénica: a cenografia do José Manuel Castanheira, os figurinos de Mariana Sá Nogueira e o desenho de luz de Jorge Ribeiro, fomam um triângulo de rigor e despojamento formal e cromático, que transformam este espectáculo num dos mais belos que eu já vi, a que a encenação de Rogério Carvalho dá um classicismo que é, ele próprio, uma leitura do texto. E que texto: de uma densidade psicológica, profundo e poético, típico, penso eu, da passagem do século XIX para o XX, marcado pelo gosto pela arte, pela aventura, e pela descoberta da psique freudiana. António Rama e Diogo Infante dominam um elenco seguro e certo.

E é curioso porque, de certa forma, os temas do livro e da peça se cruzam. Em ambos podemos "ler" que a vida é, com efeito, um caminho solitário. E que a solidão desse caminho só faz sentido por causa das epifanias que no percurso de uma vida são os encontros com os outros. Apenas sós nos encontramos com o outro. E apenas esse encontro, efémero e desequilibrado e condenado ele próprio ao desencontro e à ausência, torna suportável a solidão.
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