?

Log in

No account? Create an account

os teus mortos são agora os meus mortos, mãe
rosas
innersmile
Os teus mortos são agora os meus mortos, Mãe
Vi-os estendidos, um atrás do outro, a perder de vista,
Nas suas caixas de vidro
Rutilando ao sol na cálida poeira da tarde.

E reconheci-os
Reconheci-os na mão que até eles me conduziu
E limpou a sua cama de pedra partida
Das ervas que no seu colo tinham feito ninho.

Reconheci-os pelos tranquilos sorrisos
Em que se abriram, talhão a talhão,
Ilha a ilha, cemitério a cemitério.
E, Mãe, eles têm uma serenidade que
Nos falta a nós, os vivos deste lado.

Eles ficaram com as árvores
Seguros à raiz
Inchados na semente.
Vão com os animais,
Sobem a nuvens que nunca vimos tão altas
E, Mãe, há neles uma felicidade
Tão rara e estranha que parece desconhecida.

Eles mestiçaram-se, Mãe, os teus, os nossos mortos
Misturaram-se com a resplandecente poeira,
Abandonaram os velhos livros de repartição,
Os papeis descarnados dos nomes
E por lá ficaram (a rua, a casa)
A celebrar outro futuro, que não é teu
Mas ao qual tu pertences, Mãe.

Eu estive lá e vi-os, Mãe
E trago-te agora o recado dos seus sorrisos,
A mão tangente do teu Pai e a
Mão que escreveu a primeira palavra que me deste.
Eu estive lá, e eles lá estavam
Estendidos um atrás do outro
Nas suas caixas cintilando à poeira da tarde
Como os vidros traseiros dos chapas.

Trago-te apenas, Mãe, a cor que escapa entre os dedos:
O fogo das árvores
O ocre da sombra quando bate nos muros
A despedida salgada do nosso único oceano
E esse magnífico tapete branco e luminoso
Dos nossos mortos estendidos ao sol.
Tags: