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conto: furadouro
rosas
innersmile
FURADOURO

As pequenas cidades balneares estão vazias no inverno, como se fossem um segredo desconhecido pelas multidões que as enchem nas noites estivais.

Furadouro. A neblina salgada que cobre o passeio junto ao mar. Caminhamos lado a lado no refúgio do clarão amarelo dos candeeiros. Nem nos tocamos, ombro a ombro. O nevoeiro protege-nos, mas estamos sempre despidos, expostos à crueza dos olhares. Quase não falamos, porque não sabemos ainda, ou não sabemos já, quais as palavras que se adequam. Rasamos as ruas, os passeios, porque precisamos do pão, mas também porque, sem o sabermos, precisamos de outros olhares, de outras paisagens, de respirar um outro ar que não seja o da respiração do outro. Somos pássaros abandonados, sem ninho. Paramos num restaurante, e eu avanço de cabeça descoberta, atalho pela espessa suspeição de que todas as cabeças se voltam, o que é impiedosamente mentira. Mas parece-me que tu estás escrito pelo meu corpo todo, que assomas, como um sinal, à minha fronte, que os meus cabelos murmuram o teu nome. E, por um momento, nem sei o que fazer com isso.

Depois há esse intervalo que só é interrompido pela brasa dos teus cigarros. Mais nada. Não há lá fora, não há madrugada, não há carros a rugir na estrada nacional, não há os vizinhos que batem com a porta ao entrar. Não há nada. Nem há, mais tarde, o teu corpo a respirar ao meu lado. Estou só. É mentira, estou só com a tua presença, o teu corpo irradia e alimenta-me, sou teu mesmo quando tu não estás, e quando me beijas a dormir. Eu, a presença do teu corpo ausente, e o frio lá fora que entra com a neblina pela minúscula janela da casa de banho.

Furadouro. Uma manhã de cardoso pires: o ar frio e seco como um osso, o sol a prumo sobre as nossas cabeças. Tudo é limpeza e claridade. Até os nossos cabelos molhados. Sabemos já que alguma coisa se instalou definitivamente entre nós. E é a isso que eu me seguro quando subimos os degraus do café Rochedo. Eu leio o jornal e tu entreténs-te com alguma coisa tua, como sempre. Com teu passado, com o teu futuro. Com o teu emprego, com o teu mobiliário de design, com os teus amigos, com os teus planos grandiosos, nos quais eu apareço sempre disfarçado, sou sempre um retrato solitário, uma conveniência que é preciso acomodar. Bebemos galões em copos altos de vidro com pega de metal. E comemos torradas, eu fico sempre com o miolo do meio, é a parte dos caprichos que me toca, a ilusão de que tu me queres nos sacrifícios, que a moeda de troca tem sempre valor equivalente. Mas já nessa altura isso era, claro, mentira.

Depois, os teus compromissos, no lugar da minha disponibilidade. Tens de sair. Tens de ir e depois voltar. Entras no carro e eu, ao ver-te de costas, ao ver-te abrir a porta do carro, ao ver-te dizer amo-te com os olhos, ao ver-te entrar para o carro, ao ver-te pôr o carro a trabalhar, ao ver-te engrenar a marcha-atrás, ao ver-te desaparecer ao fundo da rua junto ao parque de estacionamento, deveria pressentir que te afastas, que nem sequer te tinhas aproximado, que sempre foste uma distância, uma ilusão de óptica. Nem sei mesmo se eu não sabia já isso tudo, mas prefiro a ilusão da espera, a antecipação do encontro, a felicidade de estar contigo apenas adiada por breves e inconsequentes mentiras.

Saio do café, caminho pelo passeio até ao outro lado da praia, volto para trás. Ao fim da manhã, o sol cada vez mais quente, o passeio enche-se de pessoas. Casais, crianças, cães grandes e bem tratados correndo pela duna. As bicicletas, as bolas, as primeiras incursões pela areia da praia, os pés molhados na água fria. Enche-se aos poucos de verão a pequena cidade balnear. Dentro em breve, ficarão para trás os pequenos segredos, para sempre escondidos na bruma das noites invernais.
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