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The Hours
rosas
innersmile
O livro de Michael Cunningham é uma obra eminentemente literária: pelo tema, pela estrutura, pela forma como se vai construindo (ou desconstruindo, o que para o caso presente vai dar ao mesmo), e até pelo seu potencial de sedução e prazer - tudo naquele livro respira literatura, tudo provém e remete para a aventura literária.
Poderia, pois, parecer impensável adaptá-lo ao cinema. E, no entanto, agora que nos pomos perante o objecto fílmico, parece natural o apelo do livro ao cinema. Mas essa naturalidade só acontece porque The Hours é um filme conseguido (realizado, dir-se-ia, com recurso ao trocadilho fácil). Stephen Daldry conseguiu uma proeza aparentemente impossível: separar o filme de tal modo do livro que o inspira, que, mesmo que façamos da experiência cinematográfica uma espécie de reconhecimento do romance, em nenhum momento faz sentido dizer "gostei mais do livro" (ou o contrário, não interessa). São objectos distintos, que é inútil comparar: o livro de Michael Cunningham é um acontecimento literário, o filme de Daldry um objecto de cinema.
Posto isto, que há então a dizer do filme? Que é um olhar não raras vezes comovente sobre o enorme e desastrado desamparo que é estarmos a sós com as nossas horas, com o tempo que estamos condenados a percorrer até ao momento (até à hora) do fim. A vida é uma doença mortal, já o sabemos. E a consciência da mortalidade, ainda que libertadora, é tão aguda e abrasiva, que torna essa consciência insuportável, e recheia as horas, essas horas, de agonia.
A estrutura narrativa do filme é admirável: a sucessão dos planos temporais da acção, ou das acções, conceito transposto do livro, e os elementos de ligação entre esses diversos tempos narrativos, com a ajuda da inconfundível música de Philip Glass, como que dão ao filme uma estrutura poemática, como se fossem a métrica e a rima que marcam o ritmo nem por isso lento de um filme que não tem praticamente acção, a não ser aquela que decorre da respiração do dia (de UM dia).
Mas o mais admirável neste filme, são claramente as interpretações. Meryl Streep, Julianne Moore e Nicole Kidman, por esta "ordem de grandeza", são "apenas" as três estrelas mais brilhantes e extraordinárias de um cast absoluta e irrepreensivelmente perfeito, onde pontuam outros rostos conhecidos, como os de Ed Harris (sempre exigente nas escolhas e rigoroso nos métodos), da saudosa e rara Miranda Richardson, ou do igualmente raro Jeff Daniels, num cameo decisivo e marcante.
Interessante, ainda que relativamente acessório, é finalmente procurar as porventura ténues e eventuais marcas autorais dos filmes de Stephen Daldry. Se aparentemente nada liga este filme ao anterior do realizador, 'Billy Elliot', é todavia nítido que ambos os filmes encenam histórias onde se põem em causa os papeis tradicionais dos géneros sexuais, e onde esse questionar da sexualidade estará associado a um olhar que é, assumidamente, homossexual (e é interessante constatar como a generalidade da crítica pura e simplesmente ignora essa dimensão inquestionável, e nada dispicienda, do filme). Ou seja, e mesmo que aceitemos que a existência de uma categoria de "cinema gay" não faça qualquer sentido, o que esta curta cinematografia de Daldry parece dizer é que a existência de um olhar que por acaso é homossexual, traz para o cinema mais-valias de diferença e perspectiva que, no mínimo, o enriquecem.


O fim de semana trouxe ainda mais um espectáculo da Coimbra 2003, que "soma e segue"! 'Um Espectáculo com Estreia Marcada', no Museu dos Transportes (que eu não conhecia, mas que tem nítido potencial como sala de espectáculos mais experimentais), uma coreografia de Tiago Guedes com produção da RE.AL de João Fiadeiro (que estava no espectáculo e que, diz-me a minha sobrinha, também terá produção própria na C-2003). Pareceu-me sobretudo um espectáculo honesto, escorreito, ainda que pouco ambicioso, assente numa ideia que, curiosamente, tem alguma coisa a ver com o filme 'O Inadaptado': a coreografia como que recria o processo de construção do próprio espectáculo que se anuncia. Algumas ideias bem achadas e conseguidas (não muitas, mas ainda assim), ritmo sempre bem marcado, e uma função que entretém e diverte. Who could ask for anything more?
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