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conto
rosas
innersmile
Hoje está a ser um daqueles dias. Não sei. Tudo me parece de menos. Não queria estar assim, acho que o sol até brilha lá fora, mas estou assim. À espera. À espera que tu me chames. Que tu me pronuncies. Que digas o meu nome. Que me reveles na tua fotografia. Mas não sei. Tenho tudo e isso ainda me parece mais pouco e miserável do que não ter nada. Tenho as mãos vazias, ou então é o rosto que me esvazias com o teu vazio. Agora faço delete porque não faz sentido continuar.
Aqueço a sopa. Tu chegas. Levas a colher à boca. Comes em silêncio. Olhas para baixo, para o padrão da toalha de mesa, sorves a sopa devagar, perpassa pelos teus olhos o prazer aconchegante e fumarento da sopa quente. Não me dizes nada. Os teus olhos olham para ti.
Mandaste-me uma mensagem no dia dos namorados. És tão ignóbil. Uma mensagem de circunstância, a perguntar se eu estava boa porque há muito não sabias de mim. És tão ignóbil. A crueldade de fazeres de conta que não sabias que dia era para eu sofrer por achar que me mandaste uma mensagem no dia dos namorados sem te referires à circunstância de ser dia dos namorados. Já te esqueceste de que eu sempre fui mais inteligente do que tu? Já te esqueceste que me escravizaste com o sentimento de culpa de que eu era melhor do que tu, de que sempre fui melhor do que tu, de que amar-te era quase uma abjecção, uma concessão que eu fazia à loucura de querer-te para lá da minha razão, das minhas forças, do meu corpo, da minha sensibilidade, da minha delicadeza, até, de nunca te dizer frontalmente que tu eras abjecto?
Não me parece que consiga continuar. Tenho demasiadas palavras e não tenho modo de tas dizer. És uma lembrança. Ficaste lá para trás, como se fosses um apeadeiro perdido na paisagem de um comboio em movimento. Mas ficaste-me contigo. Prendeste-me não sei o quê, mas hoje sou uma amputação. Há um pedaço de lodo no meu peito, há essa tua certeza de que eu fui um caso, de que me amaste de passagem, a correr, como se eu fosse tua. E eu agora sou prisioneira dessa fantasia tua, dessa mentira tua.
Faço delete porque não faz sentido continuar. Chamaste-me tua. Ainda não sei. Mas aos poucos vou-me liquefazendo na vaga memória de ti. Do teu corpo. Do teu cheiro. Da brasa do teu cigarro. Do teu olhar bestial quando me amavas.

(este conto é dedicado a uma amiga, que, por ser 'vítima inocente', permanece por nomear)
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