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chatwin e as viagens
rosas
innersmile
O Bruce Chatwin, que foi um escritor da viagem e da errância (será esta a melhor maneira de traduzir 'restlessness', ou ficaria melhor 'desassossego', ou 'inquietação'?), escreveu um livro, 'Os Gémeos de Black Hill' sobre um par de irmãos gémeos idênticos, Lewis e Benjamin Jones, que nunca saíram da aldeia rural do País de Gales, onde nasceram.

Este livro admiravelmente escrito, e de onde emana uma profunda ternura de BC pelos seus personagens e pelo lugar que eles habitam, bem como a sua atenção habitualmente dirigida para os pormenores e sinais culturais que constituem uma identidade, representa um contraponto poderoso no conjunto da obra do escritor. Não tanto porque nele BC não deixa de nos falar, a contrario, da viagem, ou melhor, do impulso para a errância, mas sobretudo porque, de uma forma muito simples, natural, humorada e carinhosa, o escritor como que admite que há um impulso para a sedentarização, para a raiz, que é simétrico daquele que o levou a todas as "pontas" do mundo. Ao concentrar toda a acção num único lugar, o tempo (a história abarca um período de tempo que vai de finais do século XIX até à segunda metade do XX) como que passa a constituir o elemento desencadeante da errância interior dos personagens.

Que se viaja por necessidade (intrínseca ou extrínseca) é um ponto assente. Mas será que se viaja igualmente por prazer? E, nesse caso, onde residirá o prazer: na descoberta? No confronto? Na ilusão de liberdade? No escape? Na beleza do que é diferente e novo? Na antecipação do regresso?

Outro ponto assente (quase um cliché) é que a viagem é sempre um processo de auto-descoberta. Vamo-nos procurar lá longe, vamos ver se, colocados noutra paisagem, há algum pedaço de nós que se revela ex novo.

Lembrei-me disto porque estava a pensar se terei feto bem em fazer as viagens que fiz. Quer dizer, a pergunta é retórica, a questão nem se põe, mas serve só para eu me interrogar do sentido, ou do proveito, dessas viagens. Claro que a maior parte delas foram viagens turísticas, que são, apesar de tudo (apesar de serem muito malvistas), as viagens mais fáceis, no sentido em que o nosso eu conhecido mais se preserva, limitando-se a passear um olhar estrangeiro e descontraído por uma realidade diversa da que conhece, e que perante ele desfila como se estivesse no catwalk.

Mas mesmo numa viagem turística, não estamos completamente imunes. De repente, ao virar de uma esquina, o nosso olhar adoece, melancoliza-se, descobre como que uma nova morada, e ressente-se de imediato, nostalgicamente, do facto de nunca a ir habitar.

Pode ser um café em Praga, um restaurante McDonalds em Rochester, Mn, um posto de fronteira terrestre na África austral, uma esquina de prostitutas em Budapeste, a inter-state 94 cruzada por gigantescos camiões, o metro de Londres num Sábado à meia-noite, os corvos sobrevoando ao entardecer o Rock of Cashel. Podem ser as portadas verdes das janelas das casas de La Valleta. Ou uma tarde de preguiça deitada fora junto a um lago no Jardim do Luxemburgo onde as crianças faziam deslizar os seus barcos de brinquedo. Podem ser as encostas macias e verdejantes de Connemara, o sítio mais belo da terra. Ou a Lagoa do Fogo, vista cá de cima, perto do local onde o avião se despenhou. Ou as infinitas avenidas de Maputo. Ou uma noite de conversa ao luar junto à Fortaleza de São Sebastião, na Ilha.

São sítios, são locais, são momentos, onde deixámos um bocado de nós. Nós que tínhamos ido em busca de novos "nós" que nos acrescentassem, vimos de lá, afinal, diminuídos. Um pedaço do nosso corpo descobriu-se feliz nessas paragens longínquas, e por lá ficou. Deixando-nos, no regresso, um amputado vazio, que para sempre nos recordará que é espalhados e dispersos que nos sentimos mais inteiros.