?

Log in

No account? Create an account

natália
rosas
innersmile
Fez no Domingo, 16 de Março, dez anos que morreu a Natália Correia.
Quem tem memória e idade, habituou-se à presença protagonista da Natália Correia na vida pública portuguesa, nomeadamente por via da intervenção política como deputada no Parlamento. Habituámo-nos à verve, ao excesso, à clarividência, à mundividência, à exaltação da mulher, ao humor cáustico, à pose, à independência, à ironia, às histórias que ela contava e que dela contavam.
De alguma forma, fomo-nos esquecendo do principal: a poesia. E a Natália foi dos maiores poetas do século XX. Escreveu muito e escreveu muito bem. Alguns dos seus poemas são tão “nossos” e habituámo-nos tanto a conviver com eles, que se diluiu a sua marca autoral. Esquecemo-nos, por exemplo, que a Queixa Das Jovens Almas Censuradas, antes de ser uma canção do José Mário Branco, foi um poema da Natália Correia. E um daqueles poemas magníficos, que nasce do seu tempo mas aspira à intemporalidade: perdeu a referência das circunstâncias em que apareceu – o sentimento de castração por viver ao colo de um regime totalitário que tinha medo, pavor!, da liberdade do espírito, para ganhar um carácter universal – o sentimento jovem de que se é sempre maior do que a vida que nos aguarda e na qual nos querem enformar (e conformar).
Mas há outros exemplos: “ó subalimentados do sonho: a poesia é para comer”, da Defesa Do Poeta, é outro dos versos que extravasam o autor (que fez o poema em resposta à sua comparência perante o Tribunal Plenário) para se tornarem tesouros de todos nós.
A Natália é daqueles poetas em que eu me poderia rever todos os dias. A sua poesia é vária e diversa como a natureza humana. Há um dos seus poemas (inéditos) que eu só conheci com a edição da sua obra completa. Não sei se será o poema da Natália que mais me apela (possivelmente não é), e seguramente não dos seus mais conhecidos. Mas é um daqueles poemas de que me apropriei, que tornei meus, por neles me ver reflectido por inteiro. Como se tivesse sido eu a escrever, ou melhor, como se o tivesse sonhado. Chama-se FADO e é assim:

Falam de nós na cidade
Porque dizem que te ofereço
Coisas de que não disponho,
Como se fosse maldade
Dar-te os olhos para berço
E os cabelos para sonho.
Dizem que quando me deito
Contigo uma lua negra
Vem fazer o casamento.
Como se fosse defeito
Saber que a vida não chega
Para o nosso sentimento.
Lá porque o nosso passeio
É uma fuga das grades
Que em cada gesto partimos,
Dão um nome muito feio
Àquelas intimidades
Em que ficando, fugimos.
Dizem que este desatino
É a maldita lembrança
Do pecado original?
Eu só sei que isto é destino
E mesmo que seja herança
É legado natural.
Porque é virtude tocar-te
Tu és mais puro que um deus
Purificas o que afagas.
Meu amor, só de afagar-te
A minha mão chega aos céus
E sou mais forte que as pragas.