March 17th, 2003

rosas

Adaptation + Gangs of New York + Punch-Drunk Love

Fim-de-semana cinéfilo em grande!
No Sábado, excursão ao Arrábida, com a Manela, que está cá de férias e cujo único Sábado cá foi este passado encafuados em salas de cinema!, para ver Inadaptado e Gangs of New York.
Gostei mais deste Adaptation do que do anterior filme da dupla Jonze/Kaufman, o celebrado ‘Quem Quer Ser John Malkovitch?’, mas continuo a achar que J&K têm muitas (e boas, e excelentes!) ideias de e para filmes, mas que lhes falta, ainda, uma ideia de cinema. O filme é auto-celebratório e narcísico. Não tanto porque se centre no processo de fabrico do próprio filme, mas porque não consegue sair desse pressuposto, nunca se consegue libertar do "meu" caso. Nem sequer é um filme sobre o bloqueio criativo; não há nada ali que nos fale da angústia do criador (de UM criador) perante a página em branco, mas apenas sobre as angústias (pessoais?) DAQUELE criador perante as suas dificuldades criativas. Tal como no filme anterior as boas ideias perdem-se um bocado, à procura de um fio condutor que lhes dê sentido. Um pouco como um cubo de Rubik (peço desculpa pelo anacronismo do exemplo, mas cada um pertence à geração a que pertence...) todo baralhado com defeito de fabrico e que não tivesse solução possível. Notas muito positivas para os actores: Nick Cage, Meryl Streep e Chris Cooper têm presenças luminosas, definitivas e cativantes, a justificar as nomeaçõezinhas todas!

Uma ideia de cinema é o que não falta a Martin Scorsese. Gangs of New York é um filme grande, um filme maior, de fôlego. Um épico imenso que Scorsese quer (e consegue) inscrever na grande tradição do cinema americano de reflectir e sintetizar o nascimento de uma nação. E filmado (coreografado?) com o sentido excessivo de mise-en-scéne que MS sempre imprime aos seus filmes: a câmara nunca é um olho neutral e impassível que se limita a captar o que se desenrola à sua frente; muito antes pelo contrário, é uma câmara irrequieta, sempre metida no centro dos acontecimentos, que se suja de óleo e de lama, e que não raras vezes toma posição e partido. Para além de tudo o resto, é aquilo a que podemos chamar um filme de camadas: todos podemos lá ir buscar qualquer coisa, da mensagem mais profunda ao simples (simples?) épico de aventuras. Daniel Day-Lewis em grande forma, a mostrar porque é que temos saudades dos bons velhos tempos da dupla Scorsese & Robert deNiro.
O filme de MS é, naturalmente, oportuno, neste momento em que, se calhar ainda mais do que os seus inimigos mais ou menos declarados, é a grande nação americana que está em causa. E não deixa de ser curioso como o olhar de Scorsese é quase amoral, no sentido em que nunca conseguimos distinguir bem os bons dos maus da fita, mas não é, como aliás todo o seu cinema, um filme imoral, ou seja, não há ausência de uma axiologia e de uma ética. Do que resulta que, 'according to Scorsese', não nos podemos esquecer, ou melhor, a América não pode esquecer, que o seu nascimento se funda no sangue e na batalha, na luta fratricida e na sua superação.

Ideia de cinema é também o que não falta, e de que maneira, a P.T. Anderson, cujo Punch-Drunk Love fui ontem ver a Aveiro. É o meu filme preferido do PTA, sobretudo porque Barry Egan é uma personagem absolutamente irresistível. Uma coisa fantástica. Fez-me lembrar um post da moon_tales: aquele tipo de pessoas absolutamente banal, mas que são os verdadeiros heróis da vida, guerrilheiros do quotidiano. Um tipo que tenta sempre tratar bem a vida, na esperança de ser retribuído, mas a quem a vida está sempre a trocar as voltas, a pregar partidas, a mudar os caminhos do labirinto quando o rato já se julgava apontado para a saída. E ele nunca desiste, só precisa de, de vez em quando, partir uma casa-de-banho para deixar sair um bocadinho de vapor e depois lá regressa ao seu tom bem-intencionado. Comovi-me muito. Punch-Drunk Love entra directamente para a short-list dos filmes da minha vida.


Na sexta-feira, o espectáculo Mondego Chase foi um verdadeiro três-em-um: o concerto e a música dos Belle Chase Hotel, o casamento perfeito entre a música atmosférica dos BCH e a exaltação lírica das guitarras de Coimbra, e, por último mas não em último, o one-man-show de J.P. Simões. Os BCH vivem (e bem) da conjugação de dois grandes talentos: o do génio musical de Pedro Renato, que tem alma de visionário na composição mas sobretudo nos arranjos, e o do J.P. Simões que consegue tomar o pulso do tempo expondo a sua própria veia. Brilhante.