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clara andermatt + jim grimsley + agustina
rosas
innersmile
Polaroid, de Clara Andermatt, ontem no TAGV, naquela coisa da Cultura 2003. Os (novos) caminhos da dança contemporânea portuguesa. Neste espectáculo, propunha-se uma espécie de jogo de computador, com uma interacção interessante entre o palco e as projecções video. Imho, as grandes qualidades reveladas ontem foram mesmo a dança (CA e Amélia Bentes são excelentes dançarinas, que dominam com fluência e segurança o canone da dança contemporânea, ao mesmo tempo que são capazes de introduzir, sem espalhafato e com harmonia, elementos e referências exógenas, nomeadamente os que resultam da linguagem própria dos video-jogos) e a música (João Lucas, um nome a registar). O mais fraco, para mim, é uma certa caução intelectual (profunda, de mensagem) que sempre se pretende dar a estas coisas. É irritante, resulta sempre um pouco superficial, e sobretudo revela uma certa culpa e incapacidade em aceitar o divertimento puro e simples como pressuposto do objecto e da proposta cultural. Carago, podemos estar a ver um espectáculo de dança alegre, divertido e movimentado, sem termos de estar sempre a pensar na morte?

No Mil Folhas de hoje, uma recensão de Rapaz de Sonho, do Jim Grimsley. É sempre um prazer ver bem tratado um livro de que gostámos particularmente (para além de nos dar uma certa caução de autoridade: ok, podes gostar disto!). Mas o artigo de Helena Vasconcelos está, ele próprio, tão bem escrito, que se torna um objecto cultural de per si. Onde podemos ler frases admiráveis como esta: "São 'misfits', gente de difícil contacto, alucinados pelas suas próprias derrotas, enclausurados num círculo vicioso de pobreza e violência". Alucinados pelas suas próprias derrotas é ou não uma frase que diz tudo o que há a dizer acerca de um certo tipo de pessoas?
HV é directora da Storm-magazine, que se deixa ler aqui (se o link estiver correcto, que eu aqui na torradeira não consigo ir lá checkar).

Nunca tinha lido nada da Agustina Bessa-Luis, e agora, graças à colecção de livros do Público, ando a ler o Fanny Owen. É coisa para se ir lendo devagar, saboreando cada palavra, cada frase. O que mais me espanta na AB-L, e que confirma o que eu já pensava dela pelo que ia lendo na imprensa, é o seu humor finíssimo e o carácter epigramático da sua escrita. Daqueles livros para ler de lápis na mão, tal é a abundância de sentenças que parecem referências absolutamente perfeitas ao real das nossas vidas, pérolas de sabedoria e de concisão. Como esta: "a amizade é a única coisa que os deuses invejam nos homens". Ou esta: "o céu não se fez para os pardais, por muito alto que voem". Ou ainda esta, a propósito de algo que temos debatido aqui no lj: "uma profissão só é viável enquanto não nos desfigura".
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