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g de m
rosas
innersmile
Desde a infância que o nome do Guilherme de Melo me é familiar. Não tanto por ter sido contemporâneo dos meus pais, Mas sobretudo por ter sido o mais conceituado e popular jornalista do Moçambique colonial. Também aprendi a ler nas páginas do ‘Notícias’ e lembro-me de ler religiosamente o suplemento semanal (ao Sábado, se não estou em erro) dirigido pelo GM dedicado às tropas portuguesas deslocadas para a guerra colonial. Já cá em Portugal, o interesse pelo GM renovou-se em circunstâncias muito diferentes: durante muitos anos, o GM foi o único homossexual assumido nesta terra, e vê-lo a dar a cara em programas de televisão ou nas revistas, como que nos vingava a todos das nossas existências escondidas e envergonhadas. Só por isso, temos uma dívida de gratidão para o GM que nunca será saldada, tanto mais que ele sempre se mostrou com simplicidade e naturalidade, desmontando uma certa imagem excessiva dos homossexuais.

Por via do reconhecimento do nome do GM enquanto jornalista (cheguei a comprar o Diário de Notícias só de propósito para o ler), mas também por causa da sua, chamemos-lhe assim para facilitar, militância gay, fui um natural leitor dos livros do GM, desde os tempos do caderno ‘Ser homossexual em Portugal’, e, sobretudo, desde a publicação do grande fresco autobiográfico que é ‘A Sombra dos Dias’, um clássico da literatura portuguesa contemporânea, por ter sido uma das primeiras obras de ficção nacionais a lidar, de forma clara e assumida, com o passado colonial e com o processo de descolonização, mas também, claro, por ser das primeiras a tratar de forma igualmente desabrida com a homossexualidade dos seus protagonistas.

Não sou, tenho de o confessar, um admirador do estilo literário do GM. O meu gosto não passa muito por aquele tipo de escrita, de linguagem. Mas o que é estúpido é que, durante muito tempo, eu “olhava” para os livros do GM com alguma sobranceria, com um certo snobismo intelectualóide, próprio, claro, dos néscio! Enfim, temos todos direito às nossas pequenas (ou grandes!) imbecilidades.

Recentemente li um pequeno volume dedicado ao GM e que constitui uma espécie de registo autobiográfico escrito por uma terceira pessoa. Chama-se ‘GM, Um Homem Sem Pressa’ e foi escrito por Dina Gusmão. Esta leitura levou-se, por seu lado, à de ‘Gayvota’, o último livro editado do GM.

A leitura destes dois livros fez-me sentir alguma vergonha. Vergonha por nunca ter tido, e por continuar a não ter, a coragem do GM. Vergonha por, em alguns momentos, eu próprio ainda sentir alguma vergonha por ser homossexual. Isto, francamente, é o que me dana mais em mim. A falta de coragem que tenho em não assumir esta coisa perante algumas pessoas e a consciência que, misturado nessa falta de coragem, há uma dose razoável de vergonha. Mas vergonha porquê, porra! Eu que tenho tudo tão bem racionalizado, não me percebo nisto, o que é uma infelicidade (ou uma tragédia).

Porque uma coisa é um tipo esconder-se por medo, porque acha que vai ser doloroso para si ou para outros, porque não quer lidar com prováveis, ou mesmo inevitáveis, sentimentos de rejeição, ou muito simplesmente porque acha que lhe vai ser prejudicial, em termos sociais ou de emprego. Outra coisa totalmente diferente é sentir vergonha. E isso sim é que é uma fraqueza que me custa a aceitar. Eu racionalmente não tenho problema nenhum, não tenho angústias, não tenho dúvidas, não me ponho em causa por causa de uma coisa que, francamente, não domino, que pura e simplesmente me aconteceu. Mas a um nível mais subterrâneo, tenho de admitir que não me libertei ainda (ainda?) do preconceito homofóbico que grassa no geral da sociedade. Porque só isso, só o facto de eu próprio partilhar sentimentos de que também sou vítima, pode explicar esse envergonhado (e verdadeiramente miserável) sentimento de vergonha.

O livro ‘Gayvota’ do GM devia ser de leitura obrigatória. Pelos homossexuais, porque traduz por palavras muitos sentimentos, emoções e ideias que sentimos e partilhamos, mas que não conseguimos verbalizar. Mas também pelos heterossexuais, por duas razões: primeiro para perceber que um homossexual é um tipo mais ou menos como todos os outros, ou seja a matéria-prima que o constitui vem exactamente de onde vem a matéria-prima que constitui todos aqueles cuja sexualidade se situa dentro da curva de Gauss. Mas também porque o livro do GM espelha com razoável rigor o que é ser homossexual, o que passa pela cabeça (e pelo coração) de um homossexual em relação à nossa sociedade, e ao meio em que vive. É, parece-me, um livro demasiado útil e importante para ficar reduzido ao leque apertado dos leitores gay e das curiosidades.

E serve, pessoalmente, para eu homenagear o GM, pela enorme ajuda que me deu. Por me ajudar a conviver um pouco melhor comigo próprio, libertando-me um pouco mais dessa ignóbil vergonha de ser o que sou. De ser quem sou.