?

Log in

No account? Create an account

life with michael
rosas
innersmile
Ontem à noite a rtp1 (porque é que o horário nobre das estações de televisão se mudou para o período da meia-noite às duas da manhã) passou o documentário Living With Michael Jackson, a que deu o título ‘A Vida Secreta de MJ’ (só esta tradução diz bem daquilo que nós decidimos logo à partida esperar de uma coisa que ainda vamos conhecer). Martin Bashir, um repórter penso que de uma cadeia de TV inglesa, seguiu MJ durante oito meses e o filme que daí resultou é supostamente um retrato íntimo. E é, sobretudo, um interessantíssimo objecto, quer do ponto de vista psicológico quer mesmo do ponto de vista sociológico, na medida em que diz tanto acerca do próprio MJ como diz de nós, do mundo, e do tempo, em que vivemos.
Aliás, começa logo por ser interessante que, de todos os aspectos focados ao longo do filme, MB escolha para a ‘estocada final’ os três aspectos mais controversos: a relação com o pai, as cirurgias plásticas à cara, e a relação de MJ com as crianças que são convidadas para Neverland. De fora fica, por exemplo, o relacionamento de MJ com os filhos e as respectivas mães, o que é estranho tanto mais que MB tinha-se mostrado, num comentário em off, preocupado com o tipo de relacionamento entre MJ e os filhos.
Há uma coisa que resulta mais ou menos óbvia: sem querer fazer análises psicanalíticas primárias, a “wackyness” do MJ tem sobretudo a ver com o facto de ele não ter tido uma infância e uma adolescência normais (sempre dedicadas, de forma intensa e quase forçada, ao trabalho na carreira), e com o facto de ele ter dinheiro suficiente para realizar, acto imediato, todos os desejos que lhe passam pela cabeça. Este aspecto, aliás, é curioso, pois todos nós já desejámos ardentemente ter todo o dinheiro do mundo de forma a podermos ter tudo o que nos passasse pela cabeça. Bom, o resultado é aquele! As imagens de MJ a passear por uma loja de decoração, seguido pelo MB e pelo gerente da loja que não parava de esfregar as mãos, são significativas: MJ quase sem parar, vai apontando e dizendo: “I’ll have this, and this, and this”. Pára a olhar um quadro durante uns segundos, pergunta se é o Apolo a tomar banho, e conclui: ‘levo. E o debaixo também’...
Agora o que para mim foi mais surpreendente no filme, é que o discurso do MJ é a coisa com mais sentido que se possa imaginar. Posto perante a suspeita de que a razão porque ele leva miúdos a dormir no quarto tem a ver com qualquer coisa sexual, ele choca-se com a mera ideia dessa possibilidade e arranca um discurso que, analisado per si, faz todo o sentido. Realmente, que mal há em um adulto partilhar um quarto (e eventualmente uma cama) com uma criança?! Ou seja, porque é nos recusamos a aceitar a possibilidade de uma relação entre um adulto e uma criança que seja, não só ‘des-sexualizada’, como seja mesmo destituída de qualquer ascendência de poder. Mas este é apenas um dos casos em que a candura do MJ é verdadeiramente desarmante. O que o tipo diz, as coisas que ele diz, podiam ser ditas por qualquer pessoa. Aliás as coisas que ele diz deveriam ser ditas por qualquer pessoa bondosa, destituída de cinismo! O amor pelos outros, a comunhão com a natureza, não deixarmos morrer a criança que há em nós, a fé em deus... Porque raio é que nós achamos que o gajo é doido?
Quando ele diz que se identifica com o Peter Pan, isso em si não constitui um facto “weird”. Qualquer um de nós se pode identificar com o Peter Pan, ou com O Princepezinho, aliás isso acontece com muitos de nós: ir buscar a essas figuras infantis uma certa filosofia simples, pura, não contaminada, para nos ajudar a reflectir a nossa relação com o mundo e com os outros. O que faz a diferença é que, a maior parte de nós, não tem os meios para concretizar esses ideais, e depois escusamo-nos com essa falta de meios para justificarmos termos atitudes na vida quotidiana nada consentâneos com esses ideais: pois, eu se pudesse convidava os meninos pobrezinhos todos e levava-os à Feira Popular! Lá está: é isso que o Wacko faz! E depois leva-os para casa, dá-lhes milk & cookies, e acampa com eles lá em casa!
Não sei se esta minha reflexão leva a algum lado, ou mesmo se faz sentido. Provavelmente não. Mas o que me apeteceu registar foi mesmo a descoberta de que o MJ, afinal, na intimidade, só é mais louco do que nós porque, enquanto a maior parte de nós prega uma coisa e faz outra completamente diferente, o tipo prega e a seguir, graças à incomensurável fortuna, põe isso em prática.
Tags: