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The Pianist
rosas
innersmile
O Pianista é um filme doloroso. Roman Polanski pediu emprestada a história de Wladyslaw Szpilman por forma a ganhar para a realização a distância necessária para poder contar uma história que, afinal, lhe está tão próxima, sendo ele próprio um sobrevivente do holocausto e do gueto de Varsóvia.
Como em 'Se Isto É Um Homem', de Primo Levi (que esteve sempre presente no meu espírito enquanto via o filme), a ausência de um julgamento moral em relação aos perpetradores do crime hediondo (os “maus” no filme de Polanski são os alemães, os polacos e os próprios judeus, tal como os “bons” são judeus, polacos e até alemães) evidencia mais, e mais secamente, o horror, o absurdo do horror, que é levar um ser humano para além do grau máximo do sofrimento e da humilhação. Algumas das sequências do filme ficarão sempre guardadas como improváveis (e impossíveis) representações desse horror.
O filme construi-se como uma peça musical, em andamentos, cada um com o seu tema e cor dominante, e cada um mais dramático que o anterior. Num primeiro andamento, somos surpreendidos pelo lento mas inexorável avanço da besta, assistindo, tão atónitos como os protagonistas, ao progressivo cercear dos direitos dos judeus, ao cerco que lhes movem os ocupantes até ficarem encurralados, emparedados no sentido literal do termo, no gueto. Este andamento termina com a trágica entrada dos familiares de Szpilman para o combóio que os levará ao extermínio de Treblinka, sendo o próprio pianista resgatado in extremis por um colaboracionista a desempenhar as funções de polícia judeu, a prova de que não é fácil separar com clareza quem são, a nível individual, os bons e os maus.
O segundo andamento acompanha Szpilman enquanto prisioneiro no gueto, um objecto destituído de qualquer valor, e cuja sobrevivência parece depender mais de um acto de crueldade por parte dos seus algozes do que propriamente de um acto de misericórdia. É o andamento do filme em que a violência atinge o seu expoente máximo, como se fosse um muro de chumbo que cerca Szpilman e o faz mergulhar numa infinita noite de terror.
O último andamento segue a existência clandestina do pianista fora do gueto, ou melhor, a sua não existência, a necessidade de se anular ao ponto da invisibilidade como única promessa de sobrevivência. É um andamento vagaroso, cinzento e baço, que culmina na sequência admirável em que Szpilman toca piano para o oficial alemão que o encontra escondido num sótão, e onde a música como que resgata a dignidade que subsiste nas mãos do pianista, escondida e adormecida sob a crosta medonha da luta elementar pela sobrevivência, mas não morta.
Em 27 de Setembro de 1939, quando os nazis ocuparam a cidade, viviam em Varsóvia 360.000 judeus. Em Janeiro de 1945, quando os soldados russos a libertaram, restavam 20. Um deles era Wladek Szpilman. Polanski, mas também o actor Adrien Brody, escreveu com este filme uma das mais pungentes histórias da luta da humanidade contra o esquecimento.
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