February 13th, 2003

rosas

Donnie Darko

Quando se passou a vida a ver muito cinema, e se teve a sorte de ver filmes muito diferentes em fases muito diversas da vida cultural do país, e se tem curiosidade em ver o cinema que se faz em países e culturas diferentes da nossa e das que nos são mais familiares, começa a ser muito raro um filme surpreender-nos como uma coisa nova. O cinema não perde encanto e poder de atracção, e de sedução, mas são sempre muito raras as ocasiões em que olhamos para um filme e sentimos que o nosso olhar é virgem.
Como aconteceu com Donnie Darko.
Donnie Darko é um sonho, é o modo como nós, como o nosso subconsciente, organiza as coisas que nos perseguem, que nos preocupam, que nos perturbam. Caiu um motor de avião no quarto de Donnie Darko. E nós vamos passar as duas horas seguintes a ver como Donnie Darko lida com o assunto.
Donnie Darko é uma narrativa fantástica, labiríntica e sinuosa, mas de uma geometria perfeita, que explora, a nível simbólico, os medos e as ansiedades da adolescência.
Donnie Darko é uma metáfora sobre o estado da família/sociedade americana/ocidental, e as dificuldades que um adolescente sente em “construir-se” a partir de tal meio ambiente.
Donnie Darko é tudo isso, mas é mais do que isso tudo. É uma maneira de olhar, é uma coisa indefinível e que tem a ver com o olhar da câmara, com a forma como a narrativa se estrutura e constrói. Que tem a ver com o gozo de descobrir o olhar, descobrir o que se vê quando se olha, de descobrir tudo o que se pode ver, ou tudo o que se deixa ver, ou tudo o que é visível, ou tudo o que se torna visível, quando se olha.
Donnie Darko são interpretações notáveis, aliás mais do que interpretações são como se fossem “encarnações”, como se os personagens fossem corpos habitados pela alma dos actores, ou, pelo contrário, que sei eu!, como se fossem os corpos dos actores iluminados pela alma das personagens.
Donnie Darko foi o que me fez resistir à tentação de me deixar ficar preguiçosamente em casa, e sair para a rua e encontrar um milagre na sala escura de um cinema.

Ontem quando escrevi aqui um texto sobre o filme O Quarto do Filho, tive saudades da Ana. A Ana foi um encontro feliz, e o diálogo que nós travámos aqui no lj foi uma das muito boas coisas que isto me deu.
Assim, para que conste!