February 12th, 2003

rosas

o quarto do filho (sequência)

É uma sequência longa, dolorosa e admirável, que começa quando um pequeno-almoço em família, dominical e descontraído, é interrompido por um telefonema de um dos doentes de Giovanni, que, em crise, pede a sua presença.
Não constituindo propriamente um factor desencadeante, é no entanto um momento fracturante do filme: a vida como se parte, desprotege-se, expõe as pessoas a uma vulnerabilidade absoluta – Paola é assaltada numa feira de rua, Irene brinca com os colegas em cima de uma motorizada arriscando o acidente. Andrea, gorada a hipótese de ir correr com o pai, prepara-se para mergulhar no oceano com os amigos. O doente de Giovanni chamou-o porque não aguenta a angústia de suspeitar que sofre de um tumor. De um momento para o outro, inesperadamente, a vida que até aí parecia serena e feliz, segura e calma, entra numa espécie de convulsão. Como uma jarra que se despenha do alto de uma mesa para o chão e que nos deixa já adivinhar os estilhaços em que se vai transformar. Mas é uma convulsão tranquila, quotidiana, como que a dizer-nos que é a nossa própria vida que está permanentemente em risco (“viver mata”, como se dizia aqui há tempos), frágil como um telefonema para casa que vai encontrar apenas o gravador de chamadas.
Mas a sequência continua. Instaurado o caos, passamos ao momento em que Giovanni o olha pela primeira vez na cara, quando chega a casa e a desgraça está literalmente à sua espera. O caos espalha-se. Alastra. Vem, a seguir, aquele que é para mim o plano mais forte do filme: no decorrer de uma partida de basquete, Irene, a bater a bola na eminência do passe, vê o pai entrar no pavilhão, sorri-lhe, mas o sorriso morre quando descobre no rosto do pai um desamparo total, um desespero absoluto. Irene paralisa no meio do campo enquanto a partida prossegue à sua volta. Estamos já do outro lado da dor, de um sítio de onde não há regresso.
Mas há, nesta dor imensa e chocante, nesta agonia da ferida mortal, ainda um sentido. Há telefonemas a fazer, é necessário tratar das diligências relativas ao funeral, as rotinas de outras vidas que se cumprem enquanto a nossa parece estar suspensa num limiar qualquer.
Depois, sim, instala-se o vazio. No lugar do caos, fica o vazio. Sentimo-nos ocos, somos só uma carcaça desventrada soprada por dentro por um vento frio e vazio. Somos desespero. Somos uma boca aberta e surda que grita amarfanhada de encontro à colcha da cama.
Num Luna Park, Giovanni procura saturar os sentidos de sensações fortes, que lhe preencham o terrível vazio emocional. Procura alguma coisa que o faça sentir de novo, que o faça sentir-se de novo, que o roube do estado anestésico em que mergulhou. Mas mesmo no movimento violento da diversão de feira, o corpo tenso a defender-se instintivamente da agressão, é ainda o rosto vazio de Giovanni que nós vemos, um rosto que não nos olha directamente, porque apenas parece conseguir contemplar o abismo.
Fade.
A sequência termina. A vida seguirá dentro de momentos, primeiro só os estilhaços espalhados pelo chão, as vidas dos que se amam separadas pela dor, mais tarde a tentativa de colar os estilhaços, como fizemos com o nosso bule favorito quando se partiu. No tempo do filme, passaram doze minutos desde que o som da campainha do telefone interrompeu o pequeno-almoço, e suspendeu aquelas vidas. Doze longos, dolorosos, mas admiráveis minutos, em que a vida esteve verdadeiramente interrompida. E que transformam este O QUARTO DO FILHO, de Nanni Moretti, num filme sublime, terrivelmente humano e pura e simplesmente genial.