?

Log in

No account? Create an account

conto: no concerto
rosas
innersmile
NO CONCERTO

Qualquer coisa se desprendia do tom evocativo e um pouco autoritário dos vocalistas e percorria as filas de cadeiras e as ruas dos bairros e ia-nos chamar à casa onde repousássemos, como um chamamento.
Qualquer coisa que pertencesse a um país distante e estranho mas que nessa noite inundava as ruas da cidade que julgávamos nossa e nos tocava como um chamamento que não conseguíssemos recusar.
Éramos novos, tu e eu. Tu mais do que eu, e havia um tom respeitoso que usavas na voz e que sempre permaneceu lá, mesmo quando mais tarde os teus olhos me insultavam. Mas nessa noite éramos ainda novos e sonhávamos com um futuro que se desenrolasse à nossa frente ao som das tablas, e que nos levaria a uma longa viagem de comboio até ao país estranho dos vocalistas.

Permanece tu aí um pouco e fixa estes rostos, os gestos das mãos, a forma como os vocalistas parecem dialogar um com o outro, e sente que há uma presença que não consegues definir, uma ordem, uma evocação, uma veemência, talvez uma multidão obediente, mas de toda a forma um sentido que tu desconheces mas que sabes que existe. E isto traz-te desconforto, porque temes que esse sentido que pressentes mas não conheces, te diga respeito. Agora pisa o tapete que cobre o centro do palco, fixa-te nas notas complicadas que saem de inusitados instrumentos de cordas. E quando a voz dos vocalistas se soltar e fizer ouvir, segue-a e procura-a nas ruas dos bairros e até na casa.
Procura-me. Eu deverei estar nalgum canto do teu passado. Tenho de estar aí onde me deixaste pousado. Deverei estar onde me quiseste, onde me quiseste deixar, onde me deixaste pousado. Não temas o desconhecido que ele mora num país estranho e distante onde nunca fomos, onde acabámos por nunca ir.
Estaremos ainda nós os dois? Seremos ainda? Ou estarei eu já sozinho, a ouvir o chamamento, e a pensar que ainda há o teu corpo, e que no teu corpo o sol levanta-se e pousa, e eu bebo nele, e dele me alimento, e com ele me guardo e protejo, porque ele vela-me as noites. E morre-me, o teu corpo, uma pequena morte, um êxtase púrpura, cor de carne, uma equimose, uma ferida que diariamente em mim escavavas e que sublime me matava. E hoje o que resta.
Disperso-me, eu sei. Mas nesta noite, sobrepôs-se alguma coisa à voz dos vocalistas, e ao seu chamamento. Porque todas as canções, como as asas de todos os pássaros, sempre a ti me conduzem.
Tags: