January 27th, 2003

rosas

conto: ahmad

Ahmad era o negro mais belo da Ilha. A sua beleza era suspirada pelas mulheres, inconsoláveis, que não suportavam uma beleza assim. Os homens pareciam acostumados a ela, mas isso apenas porque também a eles perturbava uma tão asfixiante beleza, e escolhiam uma aparente indiferença como a mais respeitável forma da inveja. Ou da cobiça.
Ao contrário dos outros homens da Ilha, Ahmad não escolhia passar o dia deitado na esteira sob as profundas sombras com que as acácias enchiam as ruas estreitas do centro àquelas horas em que o sol era mais impiedoso. Ao invés, passeava pela Ilha, tomava banho na pequena praia de areia que sobrava atrás da fortaleza, e nadava até ao continente, na esperança de que o mar o roubasse e o libertasse.
Sim, porque Ahmad era um prisioneiro. Usava uma grilheta que aos olhos dos outros podia parecer invisível, mas cujo ferro lhe cingia em ferida o tornozelo.
A essas horas em que Ahmad passeava pelas ruas da Ilha ou nadava nas correntes do canal, um velho Baneane, de quem se dizia que era o único homem gordo da Ilha e que trocara toda a fortuna do seu tráfico pela liberdade contemplativa de não fazer nada, subia ao quarto mais alto da torre de uma velha casa colonial, ao qual o tempo tinha já arrancado portas e janelas, deixando soprar uma brisa ligeira e refrescante.
O Baneane despia todas as roupas, tendo o cuidado de não reparar no seu próprio corpo gordo, envelhecido e feio. Deitava-se de costas, todo nú, numa esteira estendida no centro do velho chão de soalho, os braços e as pernas afastados, e deixava-se estar imóvel durante muitas horas. Sentindo afagar-lhe o corpo o mesmo ar que roçava a impossível beleza de Ahmad.