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8 Mile
rosas
innersmile
Há notícias que nos apanham de surpresa, e há notícias que nos surpreendem como se fossemos nós próprios que nos apanhássemos de surpresa. Um dia destes, a desfolhar um jornal, a notícia da morte do cineasta francês Maurice Pialat. Estava, confirmam-no os jornais, posto em esquecimento este realizador que não fazia filmes, porque não o deixavam, há alguns anos. Mas, tenho de o confessar, estava também esquecido por mim, apagado pela poeira dos dias, que é, como se sabe, o que causa a erosão do esquecimento. Por isso, com esta funesta notícia, fui eu que me surpreendi. Porque me lembrei de que houve dois ou três filmes de Pialat que marcaram com violência a minha maneira de ver cinema: Loulou (e apaixonei-me pelo Géràrd Depardieu), A Nous Amours (e apaixonei-me pela Sandrinne Bonaire), e, penso eu, que já não me lembro nada dele, Sous Le Soleil de Satan, filmes realizados na década de oitenta Depois disso, a notícia de mais dois ou três filmes (entre eles Van Gogh) que nunca passaram por cá. Havia uma ideia de exposição e confronto nos filmes do Pialat (ou então naquilo que me ficou, dos seus filmes, marcado no olhar) que para sempre moldou o meu desejo de ver cinema.

Entretanto, o ano cinéfilo começou com o interessante 8 Mile, o veículo que Curtis Hanson tão bem desenvolveu para a passagem para o cinema de Eminem. Aquilo que distingue o Rock and Roll (e aqui uso o conceito com largueza suficiente para nele caber o hip hop), e o torna irresistivelmente apelativo, é a presença (a passagem, seria mais correcto dizer) de uma energia que é maior que a vida, e que extravasa a própria obra que lhe serve de meio de expressão. Eminem é um daqueles casos não muito frequentes em que essa energia é visível, mesmo por entre as apertadas malhas do poderoso e disciplinador mercado discográfico. E procurar tecido ideológico nas suas mais agressivas asserções misóginas, racistas ou homófobas, é não perceber o Rock'n'Roll, é não perceber essa torrente de energia incontida. O mérito maior de Curtis Hanson terá sido deixar intacta essa energia, num filme que, de resto, segue de forma inalterada o dispositivo narrativo clássico dos filmes do género "a star is born", e que é uma mistura de história 'coming of age' com história de ascenção e triunfo dos que querem vencer nos palcos ou nas telas (ou, já agora, nos ringues, na versão "rocky" do género).