January 18th, 2003

rosas

maputo iv

Tarde abrasadora de Sábado em Maputo. Devia ter ido à praia, mas, helas!, não fui. Fiquei por aqui a estiolar. Talvez vá amanhã. Mas na casa do meus queridíssímos anfitriões os planos são sempre muito contingenciais, com dois putos muito pequenos (um comemorou dois anos há pouco mais de um mês, o outro ainda nem sabe o que é isso de 'primeiro aniversário'), e com a rutura de ligamentos do meu amigo. Bom, se der óptimo, se não, óptimo também. Sempre se podem ir ver as iguanas e os bois-cavalos para a pool do Polana (eih!, esta saiu mesmo bem, super-venenosa, já podia começar a fazer crónica social no local 'Notícias').

Hoje fomos almoçar ao restauante da Costa do Sol, que, tanto quanto sei, sempre foi e continua a ser de gregos. Uma esplanada larga, em frente ao oceano, a comer camarões e a beber 2M (o que eu gosto desta cerveja), e o sistema de som a passar o Dean Martin a cantar o That's Amore! Que fantástica sensação de anacronismo, ou de diacronismo, sei lá (sei lá do que estou a falar!) São estas misturas loucas que tornam esta terra irresistivel! Ontem fui sozinho jantar ao Mundo's, que é de sul-africanos. À saída lembrei-me de trazer o resto do bife e das batatas para dar ao Morango, que é o Alfa (um dos, claro) que faz segurança (exterior, ou seja, no passeio do lado de fora da porta!) à porta do prédio da embaixada. Do restaurante até à porta do prédio é, literalmente, atravessar uma avenida, e mesmo assim foi tal o assédio que tive de ser muito resistente para o Morango não ficar sem jantar. Isto ainda me faz confusão, trazer o resto da comida do restaurante para dar ao tipo que nos faz segurança à porta de casa, e o primeiro impulso é não pactuar, mas depois lembramo-nos que o tipo está cheio de fome e que realmente apreciará aquela refeição. E que além do mais, nos dá, em agradecimento, um sorriso caloroso!
Que estranho, coisas estranhas.
O meu amigo diz que depois desta experiência em Maputo (eles estão cá vai fazer 3 anos), aprendeu que realmente as coisas essenciais são muito poucas, que a maior parte daquilo que julgamos importante é na realidade superfluo. E eu acho que ele tem razão.

Fui agora a uma livraria e comprei 3 livros (poesia da Noémia de Sousa, Nós Matámos o Cão Tinhoso, do Luis Bernardo Honwana e um dicionário de Moçambicanismos) e 5 blocos pautados de folhas amarelas, o chamado legal pad, como havia nos States. A menso de duzentos paus cada bloco, e mais de 3 contos cada livro. A contagem dos livros já vai em 4. E ainda não fui à Associação de Escritores Moçambicanos, onde tenho cá uma fezada de ir encontrar alguns tesouros.
Entretanto, deixei ontem esquecido no avião em que vim de Nampula, o livro da Maria Judite Carvalho que me tem acompanhado nesta viagem. A princípio fiquei triste, porque gostava de guardar o livro, até porque sempre que olhasse para ele lembrava-me dos sítios por onde ele já tinha andado, e eu com ele. Além disso, tinha lá dentro guardados os cartões de embarque dos vôos, o que é sempre uma coisa engraçada para guardar dentro dos livros. Mas depois deu-me prazer a ideia de eu deixar um livro, que é uma coisa de que eu gosto tanto, assim esquecido, a pedir outras mãos, outros olhos que o leiam. Assim como uma espécie de presente que eu dou de volta a esta terra pelo tempo fantástico que aqui tenho passado.