January 17th, 2003

rosas

maputo iii

De regresso a Maputo, depois de 3 dias muito intensos. Alias, se não morri de emoção nestes 3 dias, acho que nunca mais morro.
Tenho estado a escrever um log desta viagem e ontem a noite, sozinho no hotel em Nampula, a meia dúzia de metros (literalmente, e na mesma rua) da casa onde vivi desde os 5 até aos 14 anos, enchi páginas do log a recordar coisas da minha infância e a tentar racionalizar, ou pelo menos verbalizar, a torrente de coisas que me estavam a passar pela cabeça. Por um momento, achei que se parasse de escrever enlouquecia. É uma coisa tão intensa este regresso ao passado, à infância, voltar a "sentir" as coisas de uma determinada maneira, 30 anos depois de as ter vivido, que, francamente, tenho dificuldade em encontrar um sentido nesta experiência. Ou seja, não me estou a "compreender" muito bem, mas não posso entrar muito por aqui se não entro em modo "tilt" e não paro mais...

A Ilha de Moçambique continua um lugar muito mágico. Eu sei que é um 'cliche', mas efectivamente o tempo parou naquele lugar. Como não há dinheiro nem meios para manter, a erosão do ar e do mar, e dos milhares de pessoas que se refugiaram na Ilha durante a guerra, provocaram muitos estragos. Agora, aos poucos, algumas instituições estão a começar um trabalho de recuperação, que, apesar de tudo, é muito lento e difícil.
Ir às Chocas foi outra experiência incrível, apesar de me ter deixado um bocado down! Tudo muito estragado, e uma certa dificuldade em reconhecer aquele como o sítio onde passei tanto tempo em miúdo.
Em Nampula, foi mesmo um caso estranho. Parecia que tinha saído de lá na véspera. Passei o dia de ontem todo a calcorrear a cidade toda, fui ver os sítios todos de que me lembrava, as escolas onde andei, as casas onde moravam familiares e amigos, as lojas, os restaurantes, a piscina. E tudo, ou quase tudo, correspondia quase exactamente ao que eu me recordava. Só a casa onde eu morei, por causa das grades nas janelas e nas varandas e dos muros levantados, é que me custou a reconhecer. Quer dizer, identifiquei-a de imediato, o que me custou foi a reconhecer-me nela.
Mas a coisa mais impressionante de Nampula, foi o à-vontade que experimentei. Passei o dia todo a andar de um lado para o outro, a tirar fotos, à noite voltei a sair e a andar pelas ruas, e as pessoas pareciam nem dar por mim. Aqui em Maputo, eu sinto-me branco, há sempre montes de coisas a lembrarem-me que sou um branco. Na Ilha senti-me forasteiro, alvo das atenções, toda a gente sabia por onde andávamos, mas em Nampula senti-me apenas mais um! Houve um momento em que me senti negro, de tal forma parecia invisivel aos olhos das pessoas. Foi uma sensação de familiaridade incrivel, que me fez gostar ainda mais de ter voltado a cidade da minha infância.

Uma das coisas engracadas que aconteceu, não aqui em Maputo onde nunca cheguei a viver, ou pelo menos, onde nunca cheguei a viver com idade suficiente para ter memória, mas na Ilha, nas Chocas e em Nampula, lugares de que tinha fortes e impressivas recordações, é que tudo me parece mais pequeno do que eu me lembrava. Realmente, o nosso corpo é o nosso intrumento de viver o mundo, e por isso, é tambem o intrumento com que o medimos. Ora eu saí daqui miúdo, e por isso todas as praças me pareciam imensas, as ruas enormes, as casas grandes. Agora este mundo parece que encolheu, "atarracou". O largo na Ilha em frente ao Palácio de São Paulo era, na minha memória, uma coisa enorme; quando entrei nele na terça feira até tive um momento de dificuldade em o reconhecer... "Encolheu"? Não, eu é que "estiquei"! So não tive essa impressão em algumas avenidas de Nampula, que me pareceram maiores do que o que eu me lembrava, mas a minha escola primária? Gosh, como é que eu já coube ali dentro...

Para além dos sitios, e da sua magia, e da experiência louca que o meu cérebro anda a fazer com o seu armazém de memórias, as viagens em si, nesta ida ao Norte, foram um pouco aventureiras. A ida para cima foi feita num pequeno avião de 20 lugares, que parou em todas as estações e apeadeiros. Parecia um filme, aeroportos enormes, e vastamente vazios, verdadeiros cenários à espera de uma história. A viagem de Nampula para o Lumbo e o regresso, foi feito de táxi aéreo, um eufemismo para uma avioneta que leva 5 passageiros, e mais um ao lado do piloto (infelizmente, não me coube a mim esse privilégio), um voo rasante, que nos permite "ler" a terra toda, a passar devagarinho lá em baixo. A viagem de carro da Ilha para as Chocas foi de picada, onde nem faltou uma cobra (mamba, acho eu) que segundo o condutor, era muito perigosa. A picada estava em péssimo estado, naturalmente agravado pelos temporais que devastaram a região há uma semana.
Na Ilha, estiveram sem luz, sem energia eléctrica, durante 9 dias. Voltou na véspera de nos chegarmos, e mesmo assim ainda experimentamos um curto black out. Consequência: os mantimentos estavam muito racionados. No restaurante onde jantámos o simpático empregado disse-nos, desolado, que só havia 3 coisas: peixe, galinha e lagosta! Pois, claro que escolhemos lagosta. E paguei cento e tal mil meticais, ou seja pouco mais de mil escudos (aqui, o conceito de Euro perde-se: pensa-se em Meticais, em Dolares, em Rands e... em Escudos).

É assim, começo e nunca mais me apetece parar...
;)