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maputo ii
rosas
innersmile
Claro que é impossível destacar as coisas melhores destas férias. Mas houve até agora, momentos daqueles tão especiais e únicos que quase sentimos que somos outros pelo facto de os termos vivido.
Um deles foi na quarta-feira, ao fim da tarde, no regresso de uma ida ao Kruger Park (dos big five, vi 4: leão, leopardo, elefante e búfalo. Só o amigo rinoceronte faltou à chamada, mas em compensação vi uma leoa a caçar e um bando de abutres a lanchar!), fronteira de Ressano Garcia, entre Moçambique e a Africa do Sul. Não aconteceu nada de especial, mas estar ali num posto fronteiriço perdido no fim do mundo, uma verdadeira montanha de gente, filas enormes, gente por todo o lado, todo o tipo de veículos automoveis carregados até ao limite da gravidade (and beyond, really...) de pessoas e cargas várias. As pessoas são, em geral, muito afectivas, e há sempre quem se disponibilize para nos tratar de qualquer papel. Tive de pagar 30.000 meticais para poder re-entrar no país.
Outro momento intenso foi ontem, quando, depois de uma ida à praia do Bilene, entrámos em Maputo pela EN1, demorando mais de meia-hora para percorrer meia-dúzia de quilómetros. Um mar de chapas a ocuparem as faixas de rodagens todas, a estrada sempre ladeada de habitações, bares e cantinas, sempre gente, muita, imensa, grupos de pessoas a correr ao lado da estrada, grupos parados na berma a conversar, pessoas a atravessar constantemente a estrada. Era já de noite, e as estradas são muito mal iluminadas, de modo que a impressão era verdadeiramente fantasmagórica, nuvens de poeira atravessadas pelos faróis dos automóveis, e os vultos a atravessarem-se na frente do carro. Parte do caminho de regresso vim eu a conduzir, pela esquerda, num carro automático com volante à direita. Sempre a conduzir, atravessei a 24 de Julho e a Eduardo Mondlane, e atravessar essas duas avenidas equivale a atravessar a cidade toda.
De repente, ao volante de um automóvel, a guiar pelo lado "errado" da estrada, tive assim uma especie de encontro com o que poderia ter sido a minha vida, ou, mais exactamente, com o que a minha vida poderia ter sido. Ha um inegável sentimento de pertença, que é caloroso e reconfortante, mas ao mesmo tempo estranho e mesmo absurdo. Ontem, no caminho, passei a porta do cemitério onde estão enterrados a minha avó paterna e o meu avô materno, além de cinco dos meus bisavós. Num dia anterior, tinha passado em frente ao hospital onde nasci. Como ninguém pode saber com antecedência para que sítio vai depois de morrer (não estou a falar metafisicamente, estou mesmo a falar do pedaço de terra onde vão depositar o nosso cadáver), então a coisa mais aproximada de um sítio a que possamos tão prosaicamente chamar nosso, só pode mesmo ser a terra onde nascemos e onde estão enterrados os nossos. E é inacreditavel pensar em como, durante uma vida, eu não pude passar em frente a esses sítios. Passar sem emoção, sem qualquer espécie de vibração, passar só, passar quotidiano, do tipo "estás a ver aquela casa? foi ali que eu nasci".

A não ser que qualquer coisa corra muito mal, na terça-feira vou para a Ilha de Moçambique, numa espécie de chapa aéreo que pára em todas as cidades, e que nos leva até ao Lumbo, a povoação continental que fica em frente à Ilha. Na quinta-feira, regressamos de "chapa aéreo", mas enquanto as minhas companheiras de viagem continuam até Maputo, eu desembarco em Nampula, e só volto para Maputo na sexta. Amanhã cedo vamos pagar as viagens e levantar bilhetes e vouchers. Ou seja, lá vou passar mais umas noites em claro a antecipar mais esta parte da viagem!