January 9th, 2003

rosas

maputo i

"mundo mundo vasto mundo
mais vasto e o meu coração"

(CDA)

Agora estou aqui parado a olhar para as teclas e não sei muito bem por onde começar. Talvez começando por agradecer ao retorta e à donnalee terem-me telefonado ontem a noite e a donnalee ter cantado via 'mobile' em Moçambique. Foi comovente, e fiquei com o coração quentinho!

E pronto!, voltou a "branca"...

"eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que não sei o nome", canta a Adriana Calcanhotto. Pronto, eu acho que é isso que estou a tentar fazer. A prestar atenção às cores, aos cheiros.
O que mais me impressiona é o movimento, acho eu. Uma imensa mole humana que está sempre em movimento, há sempre gente a andar vagarosamente, em ar de passeio, ou a correr apressadamente, para qualquer lado. Uma noite destas acordei às 5 da manhã e como reparei que já era dia, vim espreitar à varanda (depois de ter ido ver o nascer do sol sobre a baía de Maputo) e, cá em baixo, lá andavam as pessoas. Isso é sem dúvida o que mais me tem fascinado, a imensa quantidade de gente que anda pelas ruas, as pessoas sentadas à sombra das árvores a conversar, gente, gente, sempre gente.

Impressiona-me também o aspecto desta cidade. É linda, mas linda parece ser sempre uma coisa curta para uma cidade de ruas largas e avenidas infinitas, cheias de árvores carregadas de flores vermelhas, com uma arquitectura variada e rica. É uma cidade esquisita, complicada. Impressiona-me o abandono e a degradação. A cidade guarda, como cicatrizes, as marcas do tempo colonial, e as feridas dos tempos conturbados que se seguiram. A cidade guarda, sobretudo nas suas gentes, as marcas da infindavel guerra que massacrou tudo e todos durante tanto tempo. Mas ao invés de a desfeiar, essas cicatrizes, essas marcas, a degradação, parecem acentuar ainda mais a beleza da cidade, transformando-a numa vasta nave.

Impressiona-me uma certa doçura dilacerante que perpassa pelas ruas. O império colonial legou a esta cidade uma derrota sem honra, e isso carrega-a de uma melancolia a que não falta beleza e fascínio.

Impressiona-me esta miséria. Esta gente, a mole imensa, e pobre, mas muito mais pobre do que nós somos capazes de imaginar. Há sempre gente a pedir, paramos o carro e aparecem logo os miúdos a pedir dinheiro. Toda a gente espera uma gorgeta, mesmo que não tenham feito nada por isso. A minha amiga Sandra diz, com perspicácia, que é o imposto dos brancos!, o custo que temos de suportar por sermos pessoas privilegiadas num local onde há tanta miséria.

As perspectivas de ir ao Norte são muito instáveis. A uma hora parecem boas, na hora seguinte são desesperantes. À generalizada desorganização junta-se o facto de a província de Nampula ter sido alvo de uma tempestade no fim-de-semana passado, que deixou tudo destruído, a cidade, e a maior parte da província, às escuras, as estradas cortadas, as pontes caídas... De qualquer forma, uma coisa é certa: se for, vai ser muito caro, muito mais caro do que eu pensava. Mas mesmo assim, sinto que não posso perder esta oportunidade.

Está a ser uma experiência fabulosa. Sentirmo-nos pertença de uma coisa que desconhecemos ("cores que não sei o nome",pois). Sentirmos que, realmente, é nosso o rosto que nos olha do lado de fora do vidro da janela do automóvel...