January 3rd, 2003

rosas

livros 2002

Se eu fizer um exercício de memória, os livros a que o ano de 2002 ficará ligado, são duas descobertas eventualmente tardias, mas ambas apaixonantes e, cada uma a seu modo, devastadoras. E ambas, hélas!, de autores italianos.
'Se Isto É Um Homem' é um livro feroz, que efectivamente nos transforma enquanto membros da espécie, e nos faz ganhar um respeito novo pelas nossas maiores fragilidades, pelas nossas mais pungentes fraquezas. Um livro magnífico, em que Primo Levi toca os limites do humano, na procura do que é essencial. É um daqueles livros que devemos guardar dentro do coração, para ler e reler sempre que tivermos dúvidas, sempre que nos sentirmos a tropeçar, sempre que vacilarmos.
O outro livro é 'Se Numa Noite de Inverno Um Viajante', de Italo Calvino, uma viagem fascinante, bem-humorada e labiríntica pelo próprio universo dos livros e da ficção, e pela nossa condição de leitores, sempre no pressuposto de que os livros trazem impresso lá dentro o verdadeiro rosto do homem.
Registo ainda que descobri estes dois livros graças à riquíssima colecção distribuída pelo jornal Público.
Mas este ano foi ainda o da descoberta de um novo escritor português, que entrou, com os dois livros que publicou este ano, para o grupo daqueles autores de quem leio tudo o que consigo apanhar, até as listas de lavandaria, se as tiverem claro... Falo do Frederico Lourenço, de quem li 'Pode Um Desejo Imenso' e 'O Curso das Estrelas'. Uma escrita desenvolta, culta, segura, leve (no bom sentido do termo), e muito divertida, que ao mesmo tempo que cria e desenvolve um universo romanesco particular, procura inscrevê-lo, como referente ficcional e não como qualquer tipo de caução ou bengala, no nosso maior tesouro lírico.
Ainda na ficção, reli 'Alexandra Alpha', que me fez apaixonar ainda mais por este livro do José Cardoso Pires, e voltei a ler Truman Capote, que é um dos "meus" escritores.
Também na poesia houve uma descoberta e esta bem antiga: 'Do Mundo Grego Outro Sol', espantosa antologia de poesia epigramática grega, realizada por Albano Martins, e que nos prova que efectivamente da Grécia antiga brilha um sol que nos ilumina e aquece. Poemas curtos, simples e profundos, que nos deixam sempre nos lábios um sabor a luz.
Para além daqueles poetas de sempre e com quem ando sempre às voltas (Pessoa, Eugénio, Cavafys, Whitman, Al Berto, Lorca, Natércia, Sophia, entre tantos outros), houve outras explosões poéticas: Luis Miguel Nava, Maria do Rosário Pedreira, Helder Moura Pereira.