December 28th, 2002

rosas

strummer, ritts e a velhice

A semana passada, faz amanhã oito dias, morreu o Joe Strummer, dos Clash. É dificil compreender como a mortalidade atinge aqueles em que acreditávamos quando gritavam que não havia futuro porque, precisamente, tinhamos todos o futuro todo à nossa frente.

Hoje vinha no jornal que morreu o Herb Ritts. Ok, faltavam às fotos do HR uma certa caução artística, ou então sobravam-lhe as críticas e os olhares superiores (highbrow) daqueles que não o levavam a sério por ser fotógrafo de modas e estrelas glamorosas. Mas o HR era um dos "meus" fotógrafos: porque foi dos primeiros que me levaram a reparar nessa coisa da fotografia, porque mostrava a beleza que havia naquilo que, na altura, não se podia nomear, porque também com ele aprendi que não pode haver maldade onde há tanta beleza, porque também com ele percebi que não se deve sentir vergonha do que é tão belo.

A Ana Sousa Dias entrevistou, hoje à noite, o Mário Soares. Este gajo, independentemente das simpatias ou antipatias políticas, é um sábio. O que eu mais admiro no MS é a capacidade que ele tem de "ler" o mundo, de perceber os sinais, de ouvir as vozes que sopram com o vento. De perceber o mundo actual, o sentido do que está a acontecer. Sempre que o oiço, ou sempre que o leio, aprendo sempre qualquer coisa, há sempre qualquer coisa que se ilumina no meu espírito, qualquer coisa que eu não percebia bem, mesmo que não tivesse inteira consciência disso, e que se clarifica.
Que isso tudo se passe com um tipo que tem quase oitenta anos, só pode significar uma de duas coisas, ou ambas: que o MS é um tipo extraordinário, e que a verdadeira sabedoria só chega com a velhice.

Por falar em velhice, a leitura da crónica de hoje da Clara Ferreira Alves na Revista do Expresso devia ser aqui integralmente reproduzida. Aquela tipa escreve com uma "sagesse" fora do normal, que lhe vem (possivelmente como vem ao Mário Soares) de ler muito, de ver ou ter visto muito mundo, de reflectir qb, e de uma enorme capacidade de olhar para si própria com um apurado sentido crítico. Identifico-me algumas vezes com o que ela escreve, mas hoje era capaz de subscrever a maior parte da crónica