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conto: canções de amor
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innersmile
CANÇÕES DE AMOR

O Sr. Carochinho tem dois fatos, um preto e um cinzento, que usa em semanas alternadas. Camisas, todas brancas, tem mais do que duas, mas só as muda quando troca de fato. No entanto, apesar de as usar durante vários dias, as camisas mantêm-se impecavelmente limpas, até na parte interior do colarinho. Dir-se-ia que o Sr. Carochinho tem a característica estupenda de não acumular sujidade, da mesma forma que não acumula sobre si a atenção dos outros. Se, por natureza, já pouco se dá por ele, o seu tipo físico é de tal forma indistinto que se torna muito difícil descrevê-lo. A não ser, talvez, pela cor dos fatos, mas isso só funciona de semana para semana.

O Sr. Carochinho tem um emprego burocrático que ninguém sabe qual é, a não ser, naturalmente, os seus colegas de trabalho. Mas esses, por seu lado, desconhecem quem é o Sr. Carochinho fora do rigor das paredes da repartição. O Sr. Carochinho nunca fala de si, apesar de comentar, e aliás profusamente, todos os factos que lhe são exteriores. Com efeito, o Sr. Carochinho fala sobre qualquer tema: comenta as novidades do desporto, da televisão, interessa-se por política, conhece o mundo e o que por ele vai acontecendo, está sempre a par. E conta imensas histórias, o tipo de histórias do quotidiano, as pequenas histórias de que toda a gente gosta de falar porque, precisamente, nunca dizem respeito a ninguém em particular.

Fora da repartição, pouco se sabe da vida do Sr. Carochinho. Mesmo no restaurante onde janta todos os dias, a afabilidade do Sr. Carochinho, e o seu aspecto invisível, não despertam a mínima curiosidade dos donos, dos empregados e dos restantes clientes habituais. Não passa pela cabeça de ninguém que o Sr. Carochinho possa ter uma vida para além dos quarenta e cinco minutos que, em média, demoram as suas refeições. Suspeita-se que nunca ninguém se entreteve numa noite de insónia, e muito menos foi causa da vigília, a pensar no Sr. Carochinho ou nalgum aspecto concreto da sua vida. Aliás, aos olhos dos outros a vida do Sr. Carochinho nem terá aspectos concretos.

O lar do Sr. Carochinho é um apartamento pequeno num desses prédios que não são nem novos nem antigos, numa rua sossegada de um tranquilo bairro do centro da cidade. Pela casa se conhece o dono, diz-se, ou, pelo menos, devia dizer-se. E em muitos casos, é verdade. A casa do Sr. Carochinho é muito simples, quase espartana, e impera o rigor e a funcionalidade. Pouco mobiliário, todo ele de carácter utilitário. As paredes da sala estão forradas com estantes, tal como as do corredor que separa a sala e o quarto das divisões de serviço. A única extravagância que a casa do Sr. Carochinho conhece, é a existência de um gato, preto e cinzento como os fatos, que alterna períodos de sono prolongado com brevíssimos momentos de intensa correria. Estas corridas rápidas, os saltos ágeis que contrastam com o pesado e roliço corpanzil de animal habituado à tranquilidade doméstica, constituem a principal distracção do dono e, em abono da verdade, o seu elo de ligação mais forte a outro ser vivo.

Chegado a casa após o prândio, e depois de tratar do meigo felino, o Sr. Carochinho troca o casaco do fato por um vistoso roupão chinês de sedosas bandas encarnadas, e entrega-se à actividade que constitui, de facto, a grande razão da sua vida. Há quem dedique as suas horas de ócio às mais variadas distracções, algumas delas prosseguidas com furiosa dedicação e espírito coleccionador. Há mesmo casos, menos vulgares, de quem nutra uma atenção obcecada por estas actividades ditas de lazer. Mas serão raros os casos em que estes entretenimentos ocupam todo o espaço vital disponível, e são cumpridos com uma entrega verdadeiramente religiosa, tornando-se, mais do que num caso sério, num verdadeiro mantra existencial.

O Sr. Carochinho, com efeito, tem um passatempo que ocupa praticamente a totalidade dos seus tempos livres: escreve canções de amor. Ou melhor, escreve as palavras, em forma de poemas, para imaginárias canções de amor. Começou por preencher cadernos pautados com versos de metro rigoroso e rima natural. Passou a arrumar os cadernos em pastas que enchem por completo as estantes da sala e do corredor. Nos armários da cozinha, arruma caixas de papelão cartonado com aquilo que ele apelida de material rejeitado, ou seja, os poemas que o Sr. Carochinho considera não terem atingido o padrão exigente de perfeição digno das pastas de arquivo, mas que, em razão do seu valor sentimental, ou por mero pragmatismo didáctico, devem ser preservados.

São milhares e milhares de folhas de papel, usadas de um só lado, manuscritas numa caligrafia miúda, certa e bonita, verdadeira letra de escriturário, e que enchem, literalmente, a sua casa. São poemas arrebatados e arrebatadores, que falam tanto de amores cumpridos como de amores impossíveis como de amores traídos. Falam de tórridos romances soprados por alguma brisa tropical, como falam de magoadas e dolorosas rejeições. O Sr. Carochinho não recua perante nada: há canções atravessadas por uma sensualidade tão marcante que chegam a ser graficamente obscenas, e há canções de puro platonismo espiritual, de uma transcendência quase metafísica. Há canções escritas na inábil e sofrida voz masculina, e há desvairadas canções postas na boca de mulheres desesperadamente enlouquecidas. Há canções plenas de esperança em amores por cumprir, e canções amaldiçoadas pela memória amarga de maus-amores passados.

Canções, poemas, palavras, que o Sr. Carochinho escreve noite fora, sereno como se estivesse a cumprir um destino que lhe é imposto, mas febril como se num extático estado de alheado transe. Até que, alta madrugada, saciado e exausto como um guerreiro vitorioso no termo da mais inexorável das batalhas, o Sr. Carochinho encosta a cabeça na almofada e dorme um curto mas profundíssimo sono, que lhe retempera o corpo e lhe reconcilia o espírito. Mal a aurora desponta, o gato vem-lhe miar à cama pelo leite matinal, e o Sr. Carochinho desperta feliz para mais um dia de repartição.
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innersmile
Fez ontem 25 anos que Charlie Chaplin morreu e, para assinalar a data, a rtp2 passou "Limelight", Luzes da Ribalta. É um dos últimos filmes de Chaplin e é uma espécie de testamento artístico, o que, pelo menos na parte inicial do filme, lhe dá um saborzinho a pretenciosismo. Mas a cena, quase no final, do Chaplin e do Buster Keaton, da preparação do concerto de piano e violino, é uma obra-prima e devia ser de visionamento obrigatório em todas as escolas do ensino oficial e também em todas as faculdades.
Como ao mesmo tempo estava a dar o "Singing in The Rain" na rtp1, o meu tele-comando ficou com tonturas.
Depois de "os filmes acabarem", zappei para o Arte e começou a dar uma curta do Jacques Tati (por falar nisso, o 'thema' de hoje no Arte é o Tati, com docs, curtas e Jour de Fête. Depois não digam que eu não avisei...).
À tarde tinha estado a ver com a minha sobrinha o Mary Poppins em video. O resto da família desertou para os quartos ou para a copa ver a outra tv (nestas coisas, ela é muito minha alma gémea, o que me dá um prazer tão grande), e eu e ela lá ficámos esparramados no sofá a berrar: "just a spoonfull of sugar helps the medicine go down in the most delightful way".
Enfim, só o cinema resgatou este natal da total inanidade...

Por falar em natal, cortesia do jeanlucp, a minha melhor prenda de natal deste ano foi um cd do Frank Zappa, que eu recebi na própria tarde do dia 24! (Esta parte de ter sido a melhor prenda é mesmo verdade, mas não digam ao resto do pessoal que me deu prendas, que é para não ferir suceptibilidades)

[tacky moment: I feel so empty. vai em inglês para não soar tão tacky!]
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