December 23rd, 2002

rosas

dor de corno

Acho que só estive verdadeiramente apaixonado duas vezes na vida. Verdadeira, devastadora, assolapada, apaixonadamente apaixonado. Por isso, só duas vezes na vida me lembro de ter sentido verdadeira dor de corno. Verdadeira, devastada, desesperada dor de corno. E de uma dessas vezes sempre soube que ia sobreviver, que aquilo ia passar, que era só uma questão de tempo. Ou seja, só uma vez na vida é que achei que ia morrer de dor de corno, que a dor era tão forte e profunda que eu nem conseguia respirar.
Porquê isto agora? Porque relendo o que por aqui vou deixando escrito, a única coisa que me dá gozo ler de novo, são os textos que escrevo sobre a dor de corno. São as únicas coisas que eu escrevo e nas quais me revejo depois da poeira dos dias assentar sobre elas: textos sobre a perda, sobre a sensação de perda, sobre o remorso doce, a angústia mansa, a raiva meiga, enfim isso tudo que fica depois de perdermos, de uma forma mais ou menos violenta, mais ou menos magoada, mais ou menos contrariada, o amor de quem muito amámos. O que não deixa de ser curioso, porque eu até estou convencido de que consigo lidar bem com ausências, e que mantenho sempre um razoável autocontrolo emocional.
Acho, enfim, que me tornei um adicto, como se diz agora, em dor de corno crónica. É a única coisa sobre a qual eu acho que tenho alguma coisa a dizer, e que o digo de uma forma razoavelmente interessante.
Haverá algum dor-de-cornologista que eu possa consultar?


E Bom Natal para vocês todos também!