December 22nd, 2002

rosas

incapaz

Eu sei que acaba por passar (e como sou um bocado pateta, até costuma passar depressa), mas, enquanto dura, esta sensação de desistência é angustiante.
Aqui estou eu fugindo à madrugada da única maneira que sei: olhando-me de frente, e chamando-me todos os nomes que à verdade ocorrem.
Cada vez tenho mais a certeza de que sou eu que não sou capaz. É estúpido, eu sei, mas está debaixo da minha pele, e todos os pretextos são meras desculpas.
Truman Capote: "ser-se inconscientemente ordinário é sinal de melhor carácter do que ser-se conscientemente virtuoso."
Será aí que eu falho?
O que sei é que é cada vez mais difícil aceitar, ao mesmo tempo que vai sendo cada mais óbvio. Não sou capaz. Espero (confio, talvez seja a expressão mais correcta) que amanhã me seja mais fácil aceitar esta incapacidade. Aprender um modo sereno de conviver com ela. E buscar consolo nas pequenas coisas, naquelas em que tropeçamos sem verdadeiramente darmos por elas. Buscar consolo nos outros, naquilo que os outros me dão, ou se calhar naquilo que eu sou capaz de aceitar dos outros.
Mas, hoje, doi-me o que não tenho. E doi-me sobretudo a consciência, ou o medo, de que nunca vou ter o que não tenho. E que a culpa disso é exclusivamente minha.
Mas, por hoje, desisto. Daqui a umas horas, tudo será diferente, apesar de, neste momento, eu saber que tudo será sempre igual.

Ah!, a luz que cega.
Tu és uma mentira.
rosas

tu roubaste-me a única coisa que me deste

Tu roubaste-me a única coisa que me deste. E tanto tempo depois eu ainda não compreendo porque me mostraste num momento aquilo que depois me negarias para sempre.

Arrancaste-me o braço que tarda em voltar a crescer. Deste-me uma ausência. Ou, melhor, a consciência de uma ausência. Mostraste-me como se pode ficar vazio e, no entanto, continuar respirando como se não fosse nada.

E o mais estranho é que o que me deste, deste-mo por amor. Por amor de ti, ou de mim, ou apenas por puro amor, pela simples e pura volúpia do amor.

E agora só resta, dos frutos, o sabor do veneno.