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tonino + mahler 5ª + outro sol
rosas
innersmile
Entrevista na Pública de hoje a Tonino Guerra, feita por José Tolentino Mendonça. Na entrevista, Tonino conta que perguntou a um camponês se acreditava em deus, e que o homem se recusou a responder, pois se dissesse que deus existia podia estar a contar uma mentira, e se dissesse que deus não existia podia estar a contar uma mentira ainda maior.
Há umas semanas, Tonino foi premiado na cerimónia da Academia Europeia de Cinema com um prémio de carreira, cerimónia que a rtp2 transmitiu na integra. No discurso de agradecimento, exortou os realizadores a filmarem mais, manifestando a sua incredulidade pelo facto de a maior parte dos grandes cineastas italianos não filmarem há anos.
Agora a Assírio editou Histórias para Uma Noite de Calmaria, colecção de poemas e histórias de Tonino. Na dedicatória conta como, ao terminar o manuscrito, pensou abandonar a mulher e os filhos e fugir para a Nicarágua. Algumas semanas depois, recebeu no correio um postal remetido do Brasil e dirigido à mulher, em que pedia perdão à mulher e lhe dizia que estava bem. O postal estava escrito com a sua caligrafia e assinado por si!
Tonino Guerra é uma dos nomes grandes do cinema europeu. Foi argumentista dos maiores cineastas italianos (sim, tutti quanti: Antonioni, Fellini, Monicelli, De Sicca, Rosi, os irmãos Taviani) e de alguns dos maiores cineastas europeus (Tarkovski, Angelopoulos, etc, e neste etc inclui-se o argumento para o falhado filme de Vicente Jorge Silva, Porto Santo). Eu ia dizer um disparate, que era que Tonino, com a sua humildade e a sua entrega, era a prova da superioridade da cultura europeia. Que, afinal, não é assim um disparate tão grande, porque só quando a cultura europeia é tolerante, aberta ao mundo e ao mesmo tempo devedora das suas mais recônditas, profundas e singelas raízes (e não quando invoca os empoeirados pergaminhos do saber livresco e da erudição), é que a cultura europeia é verdadeiramente superior. E Tonino Guerra é tudo isso.

A propósito da 5ª Sinfonia de Mahler, que passei a tarde a ouvir (Orquestra Sinfónica de Chicago, dirigida por Claudio Abbado), nas notas que acompanham o cd uma discussão sobre o carácter mistico da obra, a primeira das sinfonias unicamente intrumentais e que seria um hino à música absoluta, despida de qualquer programa ideológico. De uma lado aqueles que acham que toda a obra de M. é uma profissão de fé e que, no caso concreto da 5ª, esse programa "secreto" é ainda mais forte, uma vez que radica na própria estrutura da sinfonia. Do outro, aqueles que defendem que esta obra é pura e absoluta música, que lhe são estranhos quaisquer ideias ou sentimentos extra-musicais. Como Bruno Walter de quem se cita que será "música apaixonada, furiosa, patética, enfática, solene, terna, plena de sentimentos do coração humano, mas definitivamente apenas música, sem qualquer sombra de questões metafísicas no seu transcurso puramente musical". Polémicas aparte, parece-me ser uma descrição precisa desta sinfonia de Gustavo Mahler.

"do mundo grego. outro sol" é uma antologia da poesia epigramática grega, organizada por Albano Martins, que traduziu. E é a prova de que o sol, este ou outro, nasceu na Grécia. Poemas curtos, mas absolutos e redentores. Só para abrir o apetite, e para resgatar esta página da nulidade, aí fica um poema atribuído a Meléagro:
"Se vejo Téron, vejo tudo. Se vejo tudo,
mas não o vejo a ele, ao contrário, nada vejo"


[como é que consegue dizer tudo com tão poucas palavras?]