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david goldblatt + stomp + the bush of ghosts + curso das estrelas
rosas
innersmile
Fantástica exposição de David Goldblatt no CCB. Verdadeira anatomia de um regime, em que o aparente rigor e a "secura" formal das fotografias apenas evidencia o que foi o absurdo do apartheid. A fotografia de Goldblatt tem uma profundidade fora de vulgar, um invulgar poder narrativo e um "insight" espantoso. O olhar do fotógrafo é ao mesmo tempo afectivo e impiedoso, a mostrar que o trabalho do autor se situa no nó górdio exacto do seu imenso amor por uma terra e a tristeza, ou mesmo a vergonha, extrema pela sua opção ideológica. Por isso, as fotografias pós-queda do apartheid nos surjam de alguma forma desenraizadas, como se o fotógrafo ainda andasse à procura do seu país novo (para o que, de resto, contribui o facto de haver um grupo de fotografias de cariz publicitário), não completamente desprovidas de humor e de um certo sentido do ridículo. Fotografia de rosto humano, em que o plano tem a dimensão dos corpos que o habitam, são as suas fotografias nas minas de ouro e as séries "intersections" que revelam a grandiosidade do trabalho fotográfico.

O espectáculo STOMP é isso mesmo, um espectáculo. Uma ideia simples e, como muitas ideias simples, genial: o corpo humano e os intrumentos do trabalho são as formas primordiais da dança e da música. Muita energia, um ritmo alucinante, sentido de humor, e alguns sons verdadeiramente inesperados.

Há encontros com o destino? Há sim senhor. Hoje entrei na Worten, onde é raríssimo entrar. Vasculhei as prateleiras de dvd's e cd's e, como quase sempre que lá entro, não vi nada que me entusiasmasse. Já de saída, um escaparate com cd's em promoção, daqueles que são colectâneas de baladas românticas ou de xaropes country, em que 4 cd's custam 5 euros e mesmo assim ninguém lhes pega. Comecei a percorrer as filas de discos, mais por vício de mão do que por outra coisa e de repente!, tcharammm: My Life In The Bush of Ghosts, por 8 euros e qualquer coisa. Este disco do Eno e do David Byrne, que eu tinha em vinil, é um dos meus discos, daqueles que me são essenciais porque assentam num ponto especial do meu gosto musical e até da minha sensibilidade intelectual. Então não há deliciosos encontros com o destino? Há sim senhor.

Acabei a leitura de O Curso Das Estrelas, de Frederico Lourenço, de quem já tinha lido o muito amado Pode Um Desejo Imenso. O FL deve ser o meu escritor português preferido! Escreve quase insuportavelmente bem, tem um sentido de humor arrasador, fala de temas que me são caros com um acerto de tiro ao alvo, e as páginas deslizam quase sem tocarem os dedos