December 4th, 2002

rosas

listen without prejudice

A idade é sempre uma coisa má! Apesar de todas as tretas acerca de "ageing gracefully", ser novo é sempre melhor do que ser velho. Pronto! E só tem o espírito jovem quem não consegue ser jovem de outra maneira. Mas se houve um coisa positiva que a idade me trouxe, foi aprender a desvalorizar certos ódios ou desamores.
Vem isto a propósito de uma coisa que eu li aqui no lj um dia destes. Eu, quando tinha 17-20 anos, abominava o disco-sound, achava que era fútil, parolo, estúpido (uma espécie de pimba antes da expressão ter sido cunhada). A música boa era o rock, a música popular portuguesa. Aqui há uns anitos, pedi a uma amiga que ia a Londres (ainda não tinha net nem acesso a compras on-line. Nem sei mesmo se o net-shopping já tinha sido "inventado") para me trazer um cd dos Village People. Ok, interessava-me sobretudo o lado camp dos VP, o facto de serem uma espécie de ícone da cultura gay, e um dos símbolos (tal como a própria música disco, e toda a cultura que se desenvolveu à volta dos clubes de dança) do movimento gay liberation, que atingiu o seu apogeu "libertino" (e, se calhar, o seu primeiro momento importante em termos "políticos") nesses loucos finais dos anos 70, os anos da orgia pré-sida.
Comecei pelos Village People, e aos poucos fui fazendo uma reabilitação de toda a música que me passou ao lado, pelo simples facto de que eu, na época, abominava tudo o que ela representava, por oposição a uma certa atitude rock, mais interventiva, ideológicamente empenhada e "séria".
Tudo isto para dizer que a música é um grande poço onde todos podemos ir beber. E podemos estar descansados, que mesmo que a gente odeie o nosso vizinho, o facto de ele estar a beber água ao nosso lado não contamina a água que nós estamos a beber.
Para mim, não faz muito sentido dizer, hoje, que abomino a música do Marco Paulo ou da Ágata. Para falar a verdade, até acho uma certa piada à Ágata, e às suas canções de "faca e alguidar". Já passei uma viagem de carro com a minha sobrinha a berrarmos, de cor e a plenos pulmões, "mas não fiques com ele"! E facto de gostar de Ornatos, Belle Chase ou Pop Dell'Arte, não me impede de me divertir com o pop-chula rasca do Quim Barreiros. Ou, for that matters, com o popzinho bluesy do Rui Veloso (isto sem contar que em 1980, O RV foi um símbolo efectivo de uma nova maneira, e de uma maneira nova, de fazer música em Portugal).
Se há coisa que eu conquistei verdadeiramente na vida foi essa possibilidade de ouvir música sem preconceitos (listen without prejudice, como apelava, em título, um disco do George Michael). Há música que gosto e outra que não gosto. Mas a maior parte da música que eu não ouço, não é porque não goste, mas se calhar porque não a percebo. Há, realmente, música que eu não percebo, que não entendo, e tenho pena por isso. Mas isso também me dá a consciência certeira de que o problema é meu, só meu. Sou eu que não me disponho a aprender a ouvir determinado tipo de música, ou determinado autor/cantor/músico. Sou eu que não me disponho a arranjar os meios, as técnicas, os instrumentos, os conhecimentos, que me habilitem a ouvir e, eventualmente, a gostar.
Odiar uma coisa só porque eu tenho preguiça de a entender? Disparate!