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conto: às portas
rosas
innersmile
ÀS PORTAS

E então fez-se um grande silêncio. Não se ouvia o vento assobiando na poeira das nuvens. Não se ouvia o crepitar das línguas na fogueira. Não se ouviam os cascos nervosos dos cavalos. Não se ouvia o rasto prateado que a lua deixava no céu.
E então A. disse:
Eu fiz-me melhor para ti. Fiz-me fruto, fiz-me sombra, fiz-me água. Fiz-me em perfumes, em frémitos, em sopros. Fiz-me a cor adocicada da pele e o espelho lisonjeador dos olhos. Fiz-me o calor do hálito para o teu sono ser mais repousante. Fiz-me uma árvore às portas da cidade para que os teus olhos repousassem da secura. Fiz-me muros e torres inexpugnáveis. Fiz-me quartos penumbrados e alcovas mornas. Fiz-me vinho quando quiseste vinho. Fiz-me sempre o melhor para ti. Fiz-me mais. Fiz-me as penas da tua almofada e fiz-me o linho dos teus lençóis. Fiz-me felpo. Fiz-me veludo. Fiz-me braços para teres sempre aonde regressar. E fiz-me o rosto do teu ódio.
E então, lá fora, fez-se um grande silêncio que durou toda essa noite, e toda a semana depois dessa noite, e toda a estação depois dessa semana, e todo o ano depois dessa estação.
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