November 25th, 2002

rosas

8 Femmes + The Four Feathers

Filmes
Vale a pena nomeá-las: Catherine Deneuve, Fanny Ardant, Isabelle Huppert, Emmanuelle Béart, Virginie Ledoyen, Ludivine Sagnier, Firmine Richard, Danielle Darrieux. Porque é um filme de actrizes, cuja dívida para com Geoge Cukor é apenas um dos sintomas (eventualmente o mais óbvio) de um caso agudo de cinefilia. Para além de um policial em tom de comédia musical, 8 Femmes é com efeito um irresistivel exercício de reconhecimento da memória do cinema de tal modo vasto que se torna impossível nomear os nomes todos, mas que, todavia, passa pelo cinema dos anos 50, por Doris Day, por Douglas Sirk, por Miss Marple, por Vincent Minelli, por Almodovar. Seja como for, François Ozon prova que com um argumento bem escrito, ágil e desenvolto, e com oito magníficas actrizes, é possível fazer duas horas de puro gozo.
Em Quatro Penas Brancas Shekhar Kapur tenta repetir o sucesso do seu filme anterior, o premiado Elizabeth, apostando mais uma vez num certo rigor da reconstituição histórica que é, de resto, uma das marcas do cinema (e da televisão) britânico. O problema é que enquanto Elizabeth, por ser uma biografia, se dava bem com um certo registo intimista, naturalista (sempre a lembrar o paradigma que é o cinema da dupla Merchant / Ivory), Quatro Penas Brancas, por ser basicamente uma história de aventuras, precisava de um registo mais largo, mais rasgado, em que o deserto fosse personagem e não mero papel de cenário (anda se usará esta expressão quando é mais ou menos óbvio que o cenário é gerado por computador?).

Música
"God knows how I adore life / When the wind turns on the shore lies another day / I cannot ask for more". Um disco que começa com estas palavras tem necessariamente de ser uma experiência especial. Há um depuramento, um rigor, uma quase exegese neste disco, Out Of Season, de Beth Gibbons. Já não me lembrava de ter assim uma experiência tão ascética desde o Trinity Sessions, dos Cowboy Junkies.
Undercovers, o disco de versões de Maria João e Mário Laginha é divertido, fresco, leve e, sobretudo, uma declaração de amor pela música dos outros. Há um prazer quase hedonístico que se percebe à medida que as faixas se vão sucedendo. E o facto de ser um álbum mais pop do que o habitual não constitui propriamente um crime, nem impede que Mário Laginha seja um arranjador imaginativo e arriscado.
Ainda à espera de mais, e mais atentas, audições, Momento. O Pedro Abrunhosa é, sem dúvida, o músico (ou pelo menos o músico do mainstream) que leva mais a sério a música pop como um projecto de carreira, e como o trabalho de uma vida. E só reverte a seu favor que, apesar disso, não se leve demasiado a sério, brincando e ironizando com a própria iconografia pop que ele sabe ser necessária para vingar no mercado. O que eu acho é que ele é um tipo muitíssimo inteligente, e um músico muitíssimo bem preparado. E esse profissionalismo (e o respeito pelo público passa também por aí) é a sua maior arma.
Cortesia do Pedro (e dos amigos do LJ que me provaram que it’s ok to copy), roda cá em casa o Best of Bowie todo. Só não se corre o risco de uma overdose porque muito Bowie nunca é demasiado Bowie. E porque este gajo parece que sabe sempre qualquer coisa que a nós nos escapa.

Prendas do Coração
Recebi a primeira edição da "revistinha" da singingsmile. Que só pode surpreender quem não está habituado a ver as coisas que ela partilha connosco aqui no LJ. A Arte pode ser um prazer estritamente sensorial, pode ser um exercício de elaboração intelectual. Mas o que a Arte é sempre, e precisa de o ser para ser Arte, é uma experiência que enriquece a nossa percepção do mundo, que nos aumenta, que, sempre que Ela cruza o nosso caminho, nos deixa mais ricos, mais sábios, mais fortes porque mais frágeis. E é sempre isto que acontece quando nos submetemos à experiência de LIGHTSTRIPPING