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truman capote
rosas
innersmile
A minha relação com a literatura é feita sem qualquer método, ao sabor da corrente, num misto de instinto (sim, às vezes só porque gosto do título, ou da capa) e acaso, que, se nao dá muitos resultados em termos de "bagagem" literária, pelo menos dá-me muito prazer... De vez em quando, "apaixono-me" por um escritor e é um ver-se-te-avias, a ler tudo o que consigo encontrar desse autor.

Foi isso também que aconteceu há uns anitos quando li o A Sangue-Frio, do Truman Capote. Uma pancada violenta! Não descansei enquanto não li tudo o que podia, e como, na altura, não havia nets nem amazons, sempre que ia a Londres, vinha de lá carregadíssimo de livros (o hábito ficou: ainda hoje não consigo entrar naquelas livrarias sem sair devidamente atulhado!). E, aos poucos, fui lendo Um Natal, Other Voices Other Rooms, Music For Chameleons, Breakfast At Tiffany's, The Grass Harp e o Answered Prayers. Rematei com um Capote Reader por causa das pontas soltas, e com uma biografia excelente do Gerald Clarke, e arrumei o Capote no ficheiro dos casos de amor resolvidos!

Até que, recentemente, o Truman voltou (não literalmente, mas literariamente, que é mais limpinho). Primeiro com a edição do Boneca de Luxo na colecção Mil Folhas, do Público, que eu aproveitei porque nunca tinha lido o BAT em português. E, agora, com um livro que eu, como tinha arquivado o TC no ficheiro, nunca mais me tinha lembrado de procurar: Os Cães Ladram - Figuras Públicas e Partes Privadas, que foi editado pela Relógio D'Água. É, como Music For Chameleons, uma colecção de textos, todos de não-ficção, um género de jornalismo a que Truman Capote deu folgo e dignidade literárias, nomeadamente através dessa obra-prima que foi A Sangue-Frio.

E regressou intacto o prazer desta prosa limpa, musical, lírica e seca ao mesmo tempo.
O Capote não é, acho eu, o meu escritor preferido. E há escritores cujo "estilo" me seduz muito mais (só assim de cabeça estou-me a lembrar do José Cardoso Pires). Mas há uma coisa de que só agora tomei consciência: eu gostava de escrever como o Truman Capote. É mesmo o único escritor acerca de quem eu posso dizer isso, assim: se eu pudesse, se eu conseguisse, era assim que eu gostaria de escrever. Estas frases, estas palavras, este ritmo, esta música. Esta capacidade de escrever, como ele diz num passo significativo (a ver se me lembro de por aqui a citação do trecho), factualmente ainda que não seja a verdade. Escrever liberto da escravatura do fio narrativo, sem depender dele para estruturar personagens. Escolher o significado com o coração, e o significante com a razão, do que resulta uma escrita emocionada mas clara e cristalina como uma manhã de sol.
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