November 18th, 2002

rosas

lugar da infância

Resultado do livro que estou a ler, ou ansiedade por causa da viagem que cada vez se desenha com mais nitidez, a verdade é que ando perturbado com o assunto, o que se reflecte em noites mal dormidas, com muitos sonhos e pesadelos, e sempre a acordar.
Sempre achei que essa parte longínqua da minha vida, estava bem resolvida. As minhas recordações de infância acomodavam-se bem numa espécie de nuvem, onde as lembranças, as recordações, as memórias, perdiam em rigor factual e histórico, o que ganhavam em tom efabulado. Nunca tive aquilo que se chama saudades, ou seja esse misto de melancolia e desejo, que vulgarmente sentimos em relação aos momentos bons da nossa vida passada.
Agora sinto que vou abrir a caixa de Pandora, e esse facto deixa-me nervoso e ansioso. Por um lado, sinto que não tinha necessidade de fazer qualquer espécie de "trip down memory lane", mas, por outro, sinto que este regresso vai-me pôr a vibrar essas recordações da infância.
Ou seja, a vantagem de ter passado a infância numa terra muito distante e inacessível, sempre me impediu de mistificar demasiado a infância como o lugar de todas as felicidades e de todas as promessas. Um pouco como se me dissesse: "já que tu não podes ir lá 'checkar' os factos, então não vale a pena alimentares a tua nostalgia com essa parte da tua vida". E agora é como se de repente eu pudesse regressar ao "lugar do crime" e confrontar-me com esse passado, poder "reabilitar" esse passado como um lugar de referências, de regressos, de pedras basilares e esteios seguros.
E ter medo do novo "eu" que vai sair do outro lado desta experiência. Medo de quê? Sei lá. Medo de "perder" a infância, como um lugar onde está todo o futuro, todas as possibilidades, todas as promessas, todas as ilusões. Medo de que esse lugar deixe de ser um dos sítios para onde podemos fugir quando o presente - o aqui e agora - se torna penoso e insuportável. Medo de que eu possa entrever o que a minha vida podia ter sido e medo de preferir de longe esse cenário putativo ao que a minha vida efectivamente foi. Além do medo que está sempre presente quando se parte, que é o medo de não voltar. Ou mesmo o medo de que regressar seja pior do que não voltar.
A probabilidade de que o que eu estou a escrever não faça sentido nenhum, é o que torna a vida uma eterna estreia sem ensaio geral! Hélas!