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sábios (maria keil)
rosas
innersmile
Na revista do Expresso do último Sábado, uma série de oito artigos sobre outros tantos “sábios”: pessoas com mais de setenta anos cujas vidas foram dedicadas à arte e que revelam, por força da idade e da sua experiência artística, uma sageza fora do normal. Os artigos resultaram de entrevistas e são escritos na primeira pessoa. O meu preferido foi o da pintora e ceramista Maria Keil. Maria refere-se à sua infância difícil (eu ia escrever infeliz, mas não sei se o terá sido), e à penosa vida de lutadora antifascista, que lhe valeu a prisão.
O artigo termina com uma frase admirável: “a vida pode ser deslumbrante, mas não é bonita” ( estou a citar de cor, de modo que pode não ser exactamente assim, mas será este o sentido). Percebo perfeitamente o que Maria quer dizer, apesar de, num primeiro momento, me ter deixado atrair pela ideia fácil de que a “vida é bonita” (como se canta numa canção brasileira). Mas percebo, penso eu, que realmente alguém para quem a vida tenha sido dura não a consiga considerar bonita. Há muita dor, muita mágoa, muita infelicidade, muitos amargos de boca. Há doenças, há mortes, há amores desfeitos, há amarguras e frustrações. Há sonhos que morrem secos como caniços e ilusões que enganam como miragens. Há amargas traições e cruéis despedidas.
Mas mesmo não sendo bonita, vida é sempre deslumbrante. É sempre milagrosa, aventureira. É sempre uma viagem de montanha russa surpreendente e selvagem. Parece que fazemos com a vida um pacto, como se ela fosse um motorista louco: dizemos-lhe para onde queremos ir (aonde desejaríamos chegar, onde gostávamos que fosse o nosso destino) e depois deixamos que ela nos surpreenda com a escolha dos mais improváveis percursos, com misteriosos volta-faces e reviravoltas. E por isso o deslumbramento: por muito irritante, doloroso ou inexplicável o sentido por que a nossa vida nos leva, há duas coisas que tornam a viagem imperdivel: a surpresa absoluta de uma fabulosa paisagem que descobrimos ao sair de uma curva apertada do caminho, e a esperança de que para além da próxima curva esteja uma paisagem ainda mais fabulosa.

lj (na vida real)
rosas
innersmile
Comecei a escrever isto como uma resposta a um comentário que o retorta pôs aqui. Como estava muito crescida, decidi autonomizá-la. Como segue.

Talvez me tenha explicado mal, mas eu não ponho em causa que o que nós pomos aqui no LJ, e o que aqui nos expomos, é verdade. Nem faria sentido se fosse de outra maneira; o laço que nos une já é de si tão frágil, que se fossemos jogar um jogo de falsidades, mentiras e pretensões, ficávamos sem nada na mão. Nós, os que eventualmente jogássemos esse jogo, não os outros, esses outros a quem porventura julgássemos enganar. Não sei se estou a ser claro. Mas o que quero dizer é que se alguém viesse para aqui com tretas, seria mesmo ela própria a única pessoa enganada. Para mim, genericamente falando, o que "tu" aqui escreves é verdade porque "tu" aqui o escreveste. A partir do momento em que "tu" o escreveste, passou a ser verdade. Se por acaso é mentira, é uma mentira que só a "ti" diz respeito, não me afecta, porque para mim basta que "tu" a tenhas escrito para ser verdade.

Bom, nesse caso, o que eu pus em dúvida (dúvida minha, note-se) não é a verdade do LJ, mas a sua realidade. A virtualidade do meio faz-me um bocado de impressão. Faz-me impressão que haja pessoas que passaram por aqui, que nós "conhecemos", que nos reflectiram, que nos ajudaram a encontrar respostas e a centrar questões, e que depois, de um momento para o outro, desapareceram. E tu não sabes se estão vivas, se morreram, se casaram, se emigraram, ou se pura e simplesmente "evoluíram" para fora daqui. Deixa-me um pouco sufocado que esta “coisa” que para mim é importante, precisamente porque me exponho, porque corro riscos, porque me dispo, porque assumo coisas que não sou capaz de assumir “na vida real” (obrigado Sérgio Godinho), seja tão frágil, tão virtual. Por isso falei em simulacro de realidade. Não numa realidade falsa, mentirosa, enganosa, mas numa realidade que não é real, que não existe a não ser nos efémeros momentos em que aqui escrevo e em que aqui leio o que outros escrevem.