November 12th, 2002

rosas

conto: do outro lado da cidade

Fechas cautelosamente a porta atrás de ti e afastas-te. Deixas para trás o som do gelo a tilintar nos copos e o ruído surdo das conversas. Estão todos demasiado entretidos com as suas próprias ausências para repararem na tua. Daqui a algum tempo, alguém lançará um olhar em redor à tua procura, sem ter a certeza se já te terá visto esta noite, e tomará uma nota mental do que precisa de te dizer da próxima vez que te vir. E nessa altura, tu já estarás demasiado longe.
A noite está fria, ou pelo menos assim te parece, e por isso cinges o sobretudo à volta da cintura. Há uma neblina suave e o teu automóvel está coberto por uma imensidade de pequenas gotas de geada. Paras na berma do passeio, quem visse diria que estavas a admirar o carro. Na verdade, tu paraste a contemplar a possibilidade de fazeres o caminho a pé, e depois alguma coisa te ocupou o espírito e tu deixaste-te ficar parado, os pés afastados o suficiente para te dar estabilidade, as mãos afundadas nas algibeiras do sobretudo, uma delas a brincar com as chaves do carro, o olhar perdido na cor azul da porta do carro.
Entre ti, parado na berma do passeio às primeiras horas da primeira madrugada de inverno, e o teu destino, há uma infinidade de bairros, de ruas, de cruzamentos com semáforos, de pontes, que tu te dispões a cruzar e que te demorarão nem tu sabes quanto tempo a percorrer. Se calhar foi isso que te fez parar, suspenso em elaborados cálculos mentais de quanto tempo tu demorarás (ou demorarias, não se sabe ainda) a percorrer uma distância que não sabes muito bem avaliar, mas que te parece interminável. Uma distância tão grande que nunca te passou sequer pela cabeça a possibilidade de a percorreres a pé. Uma distância de tal forma grande que dir-se-ia que o teu destino fica numa outra cidade, para lá de todas as periferias, de todos os limites que tu conheces.
Sentes-te efectivamente como se estivesses noutra cidade, e sentes uma estranheza, como alguém que tivesse acabado de acordar num local que não conhece e não faz a menor ideia onde seja. Essa estranheza retira-te do estado de torpor em que estiveste mergulhado durante o que te pareceu ter sido muito tempo.
Levantas os olhos à procura das janelas iluminadas do prédio que acabas de abandonar. Lá estão as silhuetas das pessoas, em contraluz com as luzes brilhantes dos candeeiros. Parece-te mesmo ouvir o ruído surdo das conversas e o som do gelo a tilintar nos copos. Como que pressentes que alguém está a tua procura, e lanças um olhar em volta. Um rosto conhecido e amigável era capar de te reter, mas só vês caras estranhas, sorrisos que não entendes e bocas que mexem sem que percebas o que dizem. Pegas no sobretudo, que trouxeste porque adivinhaste que esta seria a primeira noite de inverno, fechas cautelosamente a porta atrás de ti e afastas-te.