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et 20 anos depois
rosas
innersmile
Ver ET 20 anos depois, torna-se uma experiência clarificadora. Desde logo, porque confirma o estatuto de clássico do filme, reunindo duas condições para uma obra ser considerada como tal: reflectir o tempo em que foi feita, de modo a que, através dela, podermos fazer uma leitura sobre a época, e conseguir, pela universalidade e intemporalidade do tema abordado, ou mesmo apenas pela especificidade do seu olhar, manter intacto o seu apelo, não obstante a latitude ou a distância com que a re-vemos.

Com efeito, o filme de Spielberg consegue ser, em primeiro lugar, uma obra característica do tempo em que foi feito, quer enquanto obra cinematográfica, quer pelos temas abordados. O filme tem uma certa ingenuidade que seria difícil segurar hoje em dia; é um filme isento, já nem diria de cinismo, mas mesmo de uma certa “coolness” que é uma das marcas da arte actual. Por outro lado, é um dos primeiros filmes que reflete um novo "ambiente" familiar, ou, se se quiser, um conceito alternativo de família, por oposição ao conceito tradicional onde, por norma, se desenrolava o dispositivo narrativo.

Por outro lado, rever o filme agora, prova quão injustas foram as acusações de um certo infantilismo que pesaram sobre este filme e, de um modo geral, sobre todo o cinema de Spielberg pré A Lista de Schindler, e que, de resto, ainda assomem à primeira oportunidade. Temas como o da aceitação do outro, o respeito pela diferença, e a capacidade de contacto mesmo apesar das mais radicais diferenças, são temas eventualmente mais actuais hoje do que o seriam talvez há 20 anos. E são temas que apelam a um auditório adulto, e que não se perdem no tom efabulatório do filme.

Finalmente, importa pensar um pouco no papel de ET no ressurgimento de Hollywood como grande indústria do entretenimento. Steven Spielberg ficará seguramente para a história do cinema como o principal artífice desta época dourada que o cinema norte-americano está a atravessar. Spielberg, com Tubarão, e George Lucas e Star Wars, lançaram a matriz do que viria a ser o cinema americano saído dos grandes estúdios, recolocando o cinema no papel de principal fonte de entretenimento popular, depois da grave crise causada pela massificação do entretenimento televisivo. Mas foi com ET que essa matriz se fixou: um cinema de grandes meios, cujos temas e respectivo contexto apelam fortemente à vulgarmente chamada classe média, tecnologicamente inovador na busca de novas soluções narrativas (ou melhor, na busca de soluções tecnológicas que aumentem o valor de verosimilhança da narrativa), um cinema em que aos actores é pedido um compromisso com as personagens, maior do que o papel mais ou menos ilustrativo que lhes era reservado pelo star system tradicional. Mas também um cinema que, surgindo embora num meio de indústria em que o lema poderia ser “fazer mais para fazer melhor” (ou, numa versão um pouco mais cínica, “gastar mais dólares para ganhar mais dólares”), reforça as suas marcas autorais, devolvendo ao realizador o principal papel na definição da chancela final da obra (metaforicamente, e mesmo quando isso não acontece na prática, dir-se-ia que o “final cut” passou da mesa do produtor para a mesa de montagem).

assim por muito mais e muito menos
rosas
innersmile
Não sei se este poema da Natércia Freire, chamado A S S I M, será o mais apropriado para determinadas ocasiões festivas. Mas para mim ele traduz de forma cristalina um certo desamparo que sempre arrastam os tempos de balanço. Por isso, ele aqui fica, com um abraço, para o retorta.

Assim por muito mais e muito menos
Assim por heroísmo e cobardia.
Assim a tarde a noite no momento
Assim pensar em mim quando vivias.

Assim os dedos longos nos cabelos
Dos mortos abraçados e cativos.
Assim esta miséria de estar viva
E não saber estar viva quando vivo.

Assim nas brancas árvores o tempo
Assim ter acabado o meu destino
E ler-me noutros versos, noutros nomes
Assim desconhecer aonde habito.

Assim por muito mais e muito menos
Se acaba, em vida, a vida ao suicida.

Assim por ser a hora mais cinzenta,
O desamparo assim da minha vida.