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conto: manchester
rosas
innersmile
MANCHESTER

Marcia acenou-me. Eu estava sentado na bicha para tirar sangue e ela, como sempre, passou a andar muito depressa. Sempre que passava por mim, sorria ou dizia adeus com a mão, sobretudo desde que lhe dei um maço de SG Filtro. Era de noite e ela estava a passar revista à enfermaria. Eu era o único que ainda estava acordado. Perguntou-me se eu estava bem e eu disse-lhe que sim, mas que não tinha tomado o valium. Estada determinado a não tomar mais valium. Então ela convidou-me para tomar um café. Fomos para a sala das enfermeiras e, todo o caminho, ela foi a empurrar o suporte das garrafas de soro. Era a primeira vez que eu entrava naquele lugar. Só o tinha visto pela porta entreaberta quando ia chamar alguém para me mudar a garrafa. As paredes estavam cobertas com postais ilustrados, recortes de jornais e desenhos feitos por crianças com dedicatórias ternas. Ela tirou o chapeuzinho ridículo e o cinto, suspirou, fez os cafés, suspirou outra vez, e sentou-se na única poltrona que havia lá dentro, com os pés em cima de uma cadeira. Eu podia-me ter sentado numa das outras cadeiras, mas quis dar um certo ar de descontracção e força, e sentei-me em cima da secretária. Bebi o meu café com leite. Ela puxou de um maço de Silk Cut, e ia a tirar um cigarro sem me perguntar se eu queria. Eu tirei do bolso o maço recém aberto de SG e estendi-lho. Falámos sobre marcas de tabaco e sobre teores de nicotina e alcatrão. Propus-lhe uma troca: eu dava-lhe o maço de SG, e ela dava-me um Silk Cut. Desculpou-se com o regulamento e não me deu o cigarro. Eu apanhei o maço de SG de cima do braço da poltrona, tirei um cigarro, e tornei a pousá-lo. Disse-lhe que era só para agora, porque tinha outro maço, inteiro, na mesinha de cabeceira. Não teve problemas em dar-me lume. O regulamento diz que o pessoal não pode fornecer tabaco, álcool ou qualquer forma de droga não autorizada pelo médico. Havia um enfermeiro, o único do sexo masculino na enfermaria, que nos costumava dar cerveja Guinness, mas acho que essa não estava incluída nas bebidas alcoólicas. Não diz nada acerca de dar lume. Por isso foi simpática ao ponto de me acender o cigarro. Quando deu a primeira fumaça, engasgou-se e tossiu. Eu já tinha previsto isso e desatei à gargalhada. Quando recuperou o fôlego, também se riu. Disse que não conseguia fumar aquilo e apagou o cigarro. Mas ficou com o maço. Acendeu, depois, um Silk Cut.
Tornou a passar à minha frente, mas nem sequer olhou para mim. Vinha a acompanhar um rapaz alto, com uma das mangas do roupão dobrada e presa com um alfinete de segurança. O rapaz já estava todo careca e andava curvado para a frente por causa da magreza. E, claro, tinha a pele amarelada e coberta de manchas castanhas. Ela sentou-o no fim da bicha e foi buscar uma das fichas numeradas. Eu nunca tirava a minha, pois as enfermeiras do laboratório chamavam sempre 'seguinte', e nunca pela ordem dos números. Depois disse-lhe que voltaria para o levar para a enfermaria e desapareceu pelo corredor fora. Marcia não era muito gorda, mas a bata ficava-lhe bem porque lhe realçava o traseiro redondo e ajustava-se perfeitamente ao volume dos seios. Era a primeira vez, em muitas semanas, que eu tinha um pensamento vagamente sexual. Se bem que fosse uma apreciação mais ou menos objectiva, e que não traduzia qualquer forma de desejo. O meu pénis só aumentava ligeiramente de volume, ou parecia-me que aumentava, quando estava algumas horas sem urinar. Mas nunca me dei ao trabalho de verificar.
Apetecia-me olhar para o recém chegado. Era a primeira vez que eu via alguém sem um braço. Mas também podia acontecer que ele trouxesse o braço ao peito, dissimulado pelo roupão. Que era de cetim grená. Não não me parece que alguém ande com um braço escondido por baixo do roupão, portanto devia ser com certeza um amputado. Apesar de me apetecer olhar, não o fiz. Aos poucos, habituamo-nos a não olhar. Ou, pelo menos, a não olhar de uma forma curiosa, como fazem es novos e as visitas.
Mais tarde, quando voltei para a enfermaria, o rapaz estava lá. Chamava-se Andrew e tinha baixado de urgência. O nível dos glóbulos brancos tinha caído abaixo do limite mínimo e precisava de uma transfusão. Eu também já tinha levado uma transfusão, pelas mesmas razões. Foi quando vim para o terceiro tratamento. Afinal tive que esperar quatro dias para que o número de glóbulos brancos aumentasse, e eu pudesse começar o tratamento. Com as drogas, como nós dizíamos. Uma amiga que me costumava visitar protestava, a brincar, que tinha de pagar um dinheirão por um grama de haxixe, arriscando-se a ser presa, enquanto eu tinha drogas duras fornecidas de graça. Era este o tipo de piadas que costumávamos dizer.

(1985)
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