October 25th, 2002

rosas

se algum de vós for ao meu velório

Se algum de vós for ao meu velório, diga aos estranhos que por lá estiverem a interromper-me o descanso profundo com improváveis anedotas a meu respeito, que, últimas vontades, só tinha uma: ser enterrado ao som de ombra mai fù, o largo de Handel cantado por David Daniels.
A minha derradeira esperança é a de que quando Daniels começar a cantar a prolongada ombra, os anjos do céu, nús, loiros e roliços como os braços das mulheres de Rembrandt, assomem por entre as núvens e, divertidos e apiedados de me verem tão desamparado, me levem para os magníficos salões desertos onde brincam à música por toda a eternidade.
Depois, antes de abandonar o cemitério (se esse de vós for ainda mais piedoso do que os anjos e não me deixar abandonado à companhia de estranhos de óculos escuros), procure a sombra de um plátano e sente-se. Se sentir que jamais outra sombra de árvore, querida e amável, foi mais suave, esqueça depressa o meu rosto e os meus olhos. Estarei feliz.

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Se algum de vós for ao meu velório
diga aos estranhos que por lá estiverem
a interromper-me o descanso profundo
com improváveis anedotas a meu respeito
que, últimas vontades, só tive esta: ser
enterrado ao som de ombra mai fù.

A minha derradeira esperança na eternidade
é a de que quando o cantor começar a cantar
a prolongada sombra os anjos do céu
nus, louros e roliços como as mulheres de Rembrandt
assomem por entre as nuvens
e divertidos e apiedados de tal desamparo
me levem para os salões dourados onde brincam
à música por toda a eternidade.

Antes de abandonar o cemitério
esse de vós que for ainda mais piedoso do que os anjos
procure a sombra de um plátano e sente-se. Se
ombra mai fù
de vegetabile
cara ed amabile
soave più
,
esqueça depressa o meu rosto e os meus olhos.
Estarei feliz