October 9th, 2002

rosas

una giornata particolare + se isto é um homem

Uma das inúmeras razões que tornam o filme Una Giornata Particolare verdadeiramente admirável, tem a ver com as diversas dualidades que o filme vai estabelecendo. Há sempre dois planos que se estão a desenrolar simultâneamente e que se vão encontrando, cruzando e afastando. Inscrevendo a matriz fundamental do filme, o seu p(l)ano de fundo, está a dualidade entre o que se vai passando lá fora, na parada militar a que assistem Mussolinni e o seu convidado Hitler, e que vamos acompanhando pare passu através da reportagem radiofónico (outra dualidade: Gabriele acaba de ser despedido da estação de rádio), e o que se passa cá dentro, entre os dois protagonistas (outra dualidade: no filme há dois encontros, um lá fora e outro cá dentro). A visita de Hitler a Itália teve início a 6 de Maio de 1938, quando a ascenção do nazi-fascismo era ainda uma dupla promessa: um apregoado horizonte de glória para a Europa (o império nazi era um programa para durar 1000 anos), e um encontro marcado com o terror e a ignomínia absoluta. E o filme (ajudado, é certo, pela história) nunca nos deixa esquecer que estamos à beira do abismo.
[Antonietta e Gabriele, eles próprios, são personagens dúplices ao longo da narrativa, tal como são sempre dúplices as posições de um em relação ao outro (dir-se-ia que o único momento em que se encontram será aquele em que fazem amor, mas esse não nos é mostrado)].

Depois do filme ter terminado, comecei (por acaso?) a leitura de Se Isto é Um Homem, de Primo Levi. Apenas li o primeiro capítulo, em que Levi descreve as condições da sua prisão e a viagem de comboio para Auschwitz. É uma viagem arrepiante, de cabelos em pé, em que, por um momento, torna-se quase tangível a negritude que cerca aquele comboio maldito e os seus amaldiçoados passageiros.
Não sei como vou conseguir ler o livro. Olho para ele com fascínio e horror. Não leio o livro por obrigação, apesar de acreditar que temos todos obrigação de NUNCA ESQUECER. Leio-o porque acho que dentro daquele livro há uma parte da minha alma que nunca vi.