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Roger Casement
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innersmile
Nas vésperas do levantamento nacionalista irlandês conhecido por Easter Rising em Abril de 1916, um submarino alemão, transportando membros do grupo de revoltosos Irish Volunteers e armas destinadas à insurreição, foi capturado nas costas da Irlanda. Roger Casement (1864 – 1916), um dos passageiros, foi preso e levado para Londres.

Casement era um ex-diplomata do Foreign Office britânico. Durante algum tempo, ao longo da última década do século XIX, foi cônsul em Moçambique e, depois, em Angola. Já nos primeiros anos do século passado, primeiro no Congo Belga e depois no Amazonas peruano, denunciou as péssimas condições de vida e os cruéis maus-tratos a que estavam sujeitos os nativos que eram recrutados pelas empresas inglesas para trabalhar, em condições de verdadeira escravatura, na indústria da borracha. Por este trabalho humanitário, Sir Roger Casement foi ordenado cavaleiro o império britânico.

Em 1912, Casement abandonou o serviço público e, de regresso à Irlanda, empenhou-se na causa nacionalista, integrando os Irish Volunteers, um dos grupos que defendia o recurso às armas na luta pela independência. Já no decurso da I Guerra Mundial, Roger Casement deslocou-se à Alemanha, à procura de apoio para a causa independentista. Conseguiu a adesão de uns poucos irlandeses prisioneiros de guerra que integravam as fileiras britânicas e o carregamento de armas transportado pelo submarino, quando foi preso.

Em Junho de 1916, Roger Casement foi julgado por traição e condenado à morte por enforcamento. Durante o período que mediou entre o julgamento e a execução, surgiram inúmeros pedidos de clemência. Entretanto, as autoridades policiais britânicas começaram a fazer circular, por entre alguns dos subscritores desses pedidos de clemência, cópias de um alegado conjunto de diários de Casement. Nesses diários, conhecidos por ‘the Black diaries’, Casement registaria as suas inúmeras aventuras homossexuais. A natureza desses relatos, a promiscuidade daí resultante, o facto de algumas dessas aventuras envolverem menores de idade e, muitas vezes, serem pagas, chocou a mentalidade da época e refreou o entusiasmo do movimento a favor da clemência e da comutação da pena.

Em 3 de Agosto de 1916, na prisão londrina de Pentonville, Roger Casement foi executado. Logo após a execução começaram a surgir inúmeras teorias que consideravam que os diários eram uma falsificação, e que essa falsificação não era mais do que uma conspiração britânica que visava denegrir a imagem de Casement com o objectivo de desmoralizar os opositores da sua condenação à morte, e atenuar os mais que prováveis efeitos da sua execução em termos de apoio à causa nacionalista. Não obstante, a aura mítica de Roger Casement enquanto herói do nacionalismo irlandês não parou de crescer, como o atestam inúmeros poemas e canções populares que consagram o papel de Casement na luta contra o John Bull.
Durante mais de 80 anos, a polémica em torno da autenticidade dos Black Diaries (os relatos de Casement sobre as atrocidades cometidas sobre os negros do Congo e os índios do Peru ficaram conhecidos como os White Diaries) não parou de entusiasmar estudiosos e simpatizantes das causas políticas em confronto. Na década de 70, o primeiro-ministro britânico Harold Wilson devolveu as ossadas de Roger Casement à Irlanda, onde se realizou um funeral com honras de estado. Em Março de 2002, uma comissão cientifica formada por iniciativa conjunta da BBC e da RTE, e com o apoio do governo da República da Irlanda, realizou um exame forense aos Black Diaries e concluiu pela sua autenticidade.
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