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Bebes serenamente o último cálice
rosas
innersmile
1.
Bebes serenamente o último cálice, chão a chão, quarto a quarto.
Dizes o meu nome, mas a tua face está voltada para baixo e a tua boca está virada para dentro, e tudo o que eu ouço é os teus olhos que se movem à noite, o ar que inspiras e exalas, inspiras e exalas, uma e outra vez, outra, e ainda outra.
Os teus braços abertos são mornos e suaves mas o teu coração arde como uma casa em chamas e tu chamas-me docemente.
Há qualquer coisa que não cresce quando o rio varre o meu peito.
2.
Já te levantaste há muito mas há restos da tua pele que ainda se colam aos meus dedos, restos de ti, partículas, pequenos cadáveres que não se soltam quanto tu te levantas e eu já só apanho o teu corpo de costas desaparecendo para lá da curva da porta.
O que fica então de ti é um retrato que eu não consigo tocar, uma fotografia que se cristalizou no ar, na plena luz que lhe deu forma, para sempre abandonada da certeza do papel.
O que ficou então de ti é um retrato que eu não consigo ver.
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