September 26th, 2002

rosas

when you was young

Acho que é no ‘The Straight Story’ que Alvin, a personagem interpretada por Richard Farnsworth, diz a certa altura: “the worst part of being old is remembering when you was young”.
Esta frase é tão clarividente que chega a ser cruel. Não é que ser velho seja, em si, uma coisa má. A consciência da inevitabilidade da morte é uma coisa com que aprendemos a viver, com o mesmo tipo de resignação com que se aprende a viver da melhor forma possível com vizinhos indesejáveis. Aliás, como dizia alguém, a velhice até que nem é má, comparada com as alternativas.
Além disso, há coisas que são verdadeiramente deliciosas, e que só se adquirem com a idade. Há, com efeito, uma certa tranquilidade que apenas atingimos quando nos apercebemos de que a maior parte das coisas que passámos a vida a pensar que eram importantes, afinal não tinham importância nenhuma.
Outro produto da idade, é a troca do cinismo pela ironia. A ironia é doce, macia, afectuosa, enquanto o cinismo é seco e duro. Quando éramos cínicos, não acreditávamos nas pessoas, achávamos que daqui ninguém sai vivo! Agora acreditamos, com ironia é claro, que afinal o padre Américo tinha razão e não há rapazes maus.
Então, o pior de ser velho é mesmo lembrarmo-nos de quando éramos novos. Lembrarmo-nos, como no admirável verso de William Wordsworth, da hora do esplendor na relva. Do tempo em que tudo era possível porque o futuro era uma promessa em branco.
A adolescência é uma espécie de túnel sem luz ao fundo, em que apenas somos guiados por uma certeza ancestral, aguda e irracional, de que lá ao fundo há efectivamente uma saída. Mas quando finalmente se sai para a hora solar, para a, ainda Wordsworth, “radiance that was once so bright”, o tempo como que se suspende. Até aí, o tempo passava lentamente porque desejávamos que passasse depressa. Mais tarde, o tempo passará voraz e vertiginoso, porque venderíamos a nossa alma ao diabo para que ele passasse mais devagar. Mas nesse momento, o tempo tem verdadeiramente a nossa dimensão e medida. Anda ao nosso passo. É nosso. Tem o tamanho do nosso corpo.
É!, o corpo ascende à condição de estrela. Rei absoluto, que desconhece ainda de que está já condenado a passar à condição de rei obsoleto.