September 25th, 2002

rosas

responsabilidade individual

Ao almoço, alguém falou numa crónica do António José Saraiva, numa das últimas edições do Expresso, que, a propósito do Big Brother dos famosos, do caso Moderna / Portas, e do proto-caso FPF-Madaíl, e de como estas três histórias indiciam que Portugal acaba de bater um novo recorde de profundidade (o que, btw, não é bem verdade: também li um dia destes que, de cada vez julgamos que tocámos no fundo, descobrimos que, afinal, ainda se pode descer mais um bocado), concluía com uma frase que, se não era bem esta, era mais ou menos assim: já que não nos conseguimos salvar no plano colectivo, ao menos tentemos salvar-nos no plano individual.
Percebo a frase e, de resto, ela cabe inteirinha naquela que é uma das minhas “rules of thumb”: é no plano individual que temos responsabilidades, e desculparmo-nos com as incapacidades colectivas (tipo “a culpa é do sistema”) serve mesmo apenas para aquietar o peso na consciência que sentimos por não fazermos aquilo que, intimamente, sentimos que é nossa obrigação fazer.
Claro que é significativa esta diferença: para AJS, este refúgio no indivíduo é apenas um recurso para suportar, e eventualmente, ultrapassar, uma certa degradação cívica, da nossa moral colectiva, ou, melhor dizendo, da nossa moral política e “societal”.
Para mim, trata-se antes de uma espécie de responsabilização moral do indivíduo, de cada indivíduo, na medida em que apenas procurando em cada um de nós o sentido intrínseco que todos temos do bem e do mal, somos capazes de construir uma moral que seja capaz de sustentar a nossa vida em sociedade e que nos liberte, com dignidade e sentido do outro, das grilhetas das morais “extrínsecas” que sempre nos condicionaram, sejam elas de natureza religiosa, ideológica ou capitalista.