September 21st, 2002

rosas

Road to Perdition

Road To Perdition assenta num duplo princípio: o de um rigor formal extremo (dir-se-ia obsecado) e o de que ver cinema é uma actividade de puro prazer. Quanto ao primeiro aspecto, poderiamos dizer que este filme procura (e encontra) o plano perfeito, ou, melhor dizendo, a perfeição do plano: cada imagem, cada sequência, é um festival de composição, de mise-en-scéne, que poderia ser isolada numa mesa de montagem sem perder o equilíbrio absoluto de uma pintura. Claro que, com um filme que dessa forma procura a beleza, havia o risco de o filme ser um pouco frio, demasiado tecnicista e formalista. O que, acho eu, não acontece precisamente porque todo o filme é percorrido por um princípio de prazer, de disfrute, que nunca o deixa resvalar para o excesso formal. Claro que esse princípio de prazer é habitado por uma narrativa muito ritmada (o filme evolui sempre muito depressa, apesar de o tom lírico das imagens parecer indicar o contrário), com um domínio muito grande da elipse, ao serviço de uma história interessante, apesar de não muito surpreendente, e vivido por personagens de perfil bem recortado. Meia-dúzia, ou nem tanto, de planos, são suficientes para definir os traços marcantes das psicologias de Michael Sullivan, John ou Connor Rooney. Claro que para isso também contribui a excelência dos actores e do seu trabalho. Tom Hanks é, naturalmente, um achado de casting: o seu ar sempre aburguesado de funcionário público bom chefe de família assenta que nem uma luva nesta personagem moralmente dilacerada por um profundo sentido do bem em total oposição ao papel de executor ao serviço do chefe da mafia local. A Paul Newman basta-lhe uma olhar, uma fala, para ganhar um oscar! E neste filme, não são raros esses momentos, em que a contenção do seu acting realça mais o dilema que rasga John Rooney entre o seu amor ao perfeito filho adoptivo e ao falhado filho natural (apesar de Rooney parecer resolver esse seu conflito retirando-se dramaticamente de cena, a verdade é que mesmo essa rendição final corresponde a uma tomada de posição, uma vez que não lhe restam dúvidas de qual será o vencedor da contenda). Jude Law, no papel de assassíno profissional contratado para eliminar Sullivan, dá-nos outra interpretação fora de série, nm registo chaplinesco que nunca roça a caricatura. Entre os secundários, outras figuras de luxo, como o fascinante, e raro, Stanley Tucci.
Em suma, com Road To Perdition, Sam Mendes realiza um exercício moral sobre o verdadeiro lugar do bem e do mal, onde todo o destaque vai para uma beleza plástica fora de vulgar, uma narrativa clara e eficiente, e interpretações de ouro