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O Fantasma
rosas
innersmile
Primeiro, o acontecimento: 'O Fantasma', o filme choque de João Pedro Rodrigues, passou na rtp2. Dir-se-á que, comparativamente à concorrência dos canais que, à mesma hora, passavam filmes hard-core "puros e duros", não é grande ousadia em termos de moral pública (e bons costumes, já agora), mas, mesmo assim, e porque estamos perante um raro e perturbante objecto fílmico, esta transmissão não deixa de ser um facto fora do vulgar.
E tudo porque 'O Fantasma' é um filme feito nos limites da visibilidade. Desde logo porque é uma verdadeira 'obra ao negro', ou, dizendo melhor, à sombra. A luz, no filme de JPR, é, em cada plano, apenas a necessária para resgatar as imagens ao sombrio destino dos seus protagonistas (a passagem do grande para o pequeno écran torna o filme ainda mais "invisível" do que era suposto).
E é esse destino a razão do outro limite: 'O Fantasma' situa-se no limiar daquilo que podemos ver, daquilo que suportamos ver, do que é mostrável, do que é razoável mostrar-se em cinema. Não são tanto as cenas de sexo explícito, mas todo o processo de bestialização que constitui o destino de Sérgio, de que a abjecção final é apenas um espécie de ponto de não retorno. É nesse sentido que dizemos que JPR filma o limite do que é mostrável, na medida em que, ultrapassada a fronteira que Sérgio transpõe, já não é papel do cinema devolver-os a imagem do espelho velado.
Se numa segunda visão há qualquer coisa que falha, é apenas a leve impressão de que o filme poderia ter ido mais longe, ou, melhor dizendo, que poderia ser mais conciso, reservando-se em exclusivo para aquilo que é mais perturbador no seu olhar: o espanto de olhar um corpo em puro estado de desejo, que só conhece os limites depois de os ter já, inexoravelmente, ultrapassado.
Nota final: se é no olhar que reside a radicalidade deste filme, e não naquilo que se mostra, também é verdade que o que traz esse olhar para o extremo é aquilo que ele vê. E aquilo que ele vê é, como tem de ser no cinema, o corpo do actor.Só o actor, o actor perfeito, o actor pereito para aquele papel, dá ao olhar que o filma o suporte físico necessário para que o cinema seja sempre uma transfiguração.

Já depois de ter postado esta entrada, descobri um texto que escrevi na altura em que vi o filme em sala, em finais de 2000. Ao contrário do texto que tinha escrito sobre a Leni Riefenstahl, que de certa forma completava o que me apeteceu escrever agora sobre ela, este texto sobre 'O Fantasma' adianta pouco ao que me pareceu importante referir hoje; no entanto, para não fazer caixinha, e porque assim ele fica aqui guardado, decidi pô-lo escondido aó atrás!

O FantasmaCollapse )</lj-cut
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