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Leni Riefenstahl
rosas
innersmile
Leni Riefenstahl comemora hoje 100 anos e o facto mereceu a atenção de jornais impressos e televisivos. E o caso não é para menos: Riefenstahl encostou o seu nome à história do século XX, e, seguindo com atenção a sua vida e o seu percurso cinematográfico (sim artístico, pois), pode ainda emprestar-se como metáfora de uma das leituras de maior impacto do século.
Em 1995, escrevi no meu diário este texto sobre Leni:
Segunda, 13 Fevereiro
Festival Leni Riefenstahl no canal 2 da televisão. Sexta e Sábado, as I e II partes de Olympia. No Domingo, o documentário de Ray Muller, The Wonderful Horrible Life of L.R.
O aspecto mais óbvio é, sem dúvida, o que se prende com as ligações da realizadora ao nazismo. L.R. fez dois filmes ao serviço de Adolf Hitler, Olympia e O Triumfo da Verdade, que, mais do que servirem o ditador, e aí seriam filmes de propaganda, se inserem na estética e no imaginário ideológico do nazismo. L.R. defende-se: fez os filmes daquele modo justamente porque o que lhe encomendaram não eram meros documentários de actualidades, mas verdadeiros filmes. Ou seja, limitou-se a ser profissional na sua arte, oficial no seu ofício. Se lho tivessem pedido (e pago?), faria do mesmo modo para Estaline ou Mao Tse Tung. Quando Ray Muller a provoca, insistindo que os filme revelavam adesão, e não apenas profissionalismo, L.R. irrita-se. Porque está mentindo, e tem vergonha de assumir que foi nazi? Prefiro antes acreditar que se perturba pelo facto, desonroso, de ter, algum dia, acreditado naquilo que podemos chamar o sonho alemão, e que durou de 1933 a 1936. Quando L.R. afirma que, durante toda a guerra esteve retirada nas montanhas fazendo um filme (e, por isso escapou-lhe parte do horror da guerra, e a totalidade das atrocidades nazis), devemos acreditar ter-se tratado de uma atitude de recusa, ou terá sido simples questão de oportunidade?
Mas há outra questão porventura mais interessante (e que, creio, foi levantada por Susan Sontag): existe uma estética do fascismo, à qual L.R. adere, ou que a fascina, não só durante o nazismo, mas também depois, nomeadamente durante a sua estadia com os Nuba? Uma estética que passará, por um lado, por um certo fascínio pelo movimento de massas, e, por outro, pela exaltação do corpo. Se O Triunfo da Verdade é um exercício de encenação e coreografia das grandes multidões disciplinadas, quer Olympia quer os filmes "home" dos Nuba mostram (deveria dizer denunciam) uma irresistivel contemplação dos corpos perfeitos, num sentido em que o desporto não é mais do que a encenação 'civilizante' das lutas guerreiras, estando aqui uma outra das inúmeras pontes que ligam os dois filmes admiráveis.


Admito que LR me fascina, muito mais do que aconselharia o teoria do pliticamente correcto. Fascinam-me os seus filmes nazis por via da tremenda noção de encenação que deles transpira. Fascina-me a mulher que nunca se deixou subalternizar pela sua condição feminina, nem mesmo quando teve de fazer uma longa travessia no deserto para evitar sentimentos de vingança que, vendo bem, até seriam justificados. Descobre-se que, afinal, o deserto era apenas o dos media, do olhar público, uma vez que Leni nunca parou de procurar, de descobrir, de fotografar e de filmar, num misto de curiosidade e aventureirismo que tem, também ele, a marca do século passado. É curioso que Leni Riefenstahl, primeiro no seio de uma sociedade fortemente masculinizada (ainda que, muitas vezes, tingida por um assomo quase ridículo de caricatura) e depois na sua condição de derrotada infame, sempre me apareceu como uma mulher liberta, assumida, liberal, símbolo (também aqui) outsider do feminismo que foi, de igual modo, outra das marcas do século. Fascina-me também que o olhar de Riefenstahl não seja um olhar assexuado: toda a sua obra é atravessada por uma pulsão erótica mais ou menos explícita.
Claro que há também coisas que me perturbam, nomeadamente no meu próprio fascinio pela figura de LR. Perturba-me, sobretudo, a noção de que os dois filmes que Riefenstahl fez para Hitler, sejam filmes tão acentuadamente políticos, sejam filmes verdadeiramente "nazis", concebidos, não como documento, mas como instrumento; mais do que celebratórios, são filmes constitutivos de uma lógica, de uma visão. Não estão só ao serviço de Hitler; integram o nazismo, fazem parte de uma estratégia (a estratégia da aranha), são, dir-se-ia hoje, parte integrante do marketing total nazi. São, em suma, uma das faces do terror.
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