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sweet ohm?
rosas
innersmile
É certo que uma frase de Shakespeare ou um verso de Camões já comoveram ou iluminaram milhões de pessoas ao longo de muitos séculos. Mas o relógio de um homem é o tempo da sua vida, e, quando eu ponho esta canção a tocar, parece que tenho outra vez dezasseis ou dezassete anos. É como se visitasse o albúm de fotografias das minhas emoções, como se empreendesse uma viagem virtual, não ao interior de mim, mas ao interior do que eu era há mais de vinte anos. É uma sensação incrível: de repente sinto-me outro, sinto-me outro eu, reconheço-me numa coisa que já fui. Sinto o que sentia e sinto-me como me sentia. A mesma espécie de ascensão, de ascese. Uma serena exaltação, ou uma exaltante serenidade, não sei.
Claro que há coisas (textos, versos, músicas, filmes, objectos) que me acompanham há muitos anos. Mas, na maior parte dos casos, essas coisas cresceram comigo, e eu com elas. Por exemplo, quando vejo o filme Annie Hall agora, vejo Annie Hall agora, como eu sou agora, e com a "sabedoria" (à falta de palavra que me sirva melhor) de quem já vê esse filme há anos e anos, em diversas fases da vida e com diferentes estados de espírito.
Mas esta canção, não. Parece-se mais com um retrato de um momento (não que ela agora não me diga nada, não, não é bem isso). Não como um retrato que tenha lá ficado lá atrás (como quando dizemos "mas como é que eu nesta altura gostava de ouvir isto ou de vestir esta roupa"), mas talvez como um retrato de um momento lá atrás que tenha chegado intacto, incólume e preservado de qualquer patine, de qualquer poeira, de qualquer desgaste, até ao momento presente.
Quando agora ouço esta música, ouço-a agora, mas, de certa forma, ouço-a como a ouvia: uma proposta de vôo, uma promessa de sonho, um mergulho de olhos fechados na água fria do futuro. Irresistivel. Aéreo. Intangível.
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